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Relato - Cape Town Cycle Tour 2019 - Do extremo para a estrada


27 MAR, 2019     Pedro Cury     5    
     


Não é de hoje que existe uma certa rivalidade entre os mundos do ciclismo de estrada (speed) e o ciclismo de montanha (MTB). Apesar de serem esportes com bicicletas, com participações olímpicas e equipamentos super especializados, a verdade é que existem muitas diferenças entre esses dois mundos.

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Visual deslumbrante do nosso QG em Cape Town   Pedro Cury

Assim como cariocas versus paulistas ou brasileiros versus argentinos, essa rivalidade entre os mundos do ciclismo é algo saudável e levado como brincadeira para a maioria das pessoas.

Apesar de pedalar há mais de 20 anos em mountain bikes, só tive minha primeira speed em 2015, com objetivo de conhecer melhor esse mundo e ter mais uma flexibilidade para os treinos - mesmo tendo o mountain biking como objetivo. Morando em uma cidade grande como o Rio e nem sempre com tempo disponível para treinos longos, ir para trilhas nem sempre é possível e andar no asfalto é uma realidade.

Sense Dream Week

No final de janeiro, recebi o convite da Sense para passar uma semana em Cape Town (África do Sul), onde eu e outros convidados da mídia especializada participaríamos de diversas atividade, inclusive a Cape Town Cycle Tour, uma prova de estrada de 109km!

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Equipe Swift Brasil reunida   Pedro Cury

O desafio agora era treinar! Confesso que no final do ano chutei o balde e relaxei nos treinos e a prova seria dia 10 de março, o que me daria apenas um mês e meio pra treinar. Parece perfeitamente suficiente, porém quando consideramos que eu estava há um tempo sem andar em speed, com outros compromissos na agenda e principalmente num período de muita chuva, a coisa poderia se complicar.

Fique tranquilo, é só pra participar!

Já participei em muitos eventos de mídia e sei que o argumento de que vai ser algo tranquilo, não é sempre verdade! Considerando o pessoal da Sense, que tem nomes como Nildo Guedes, Pierre De Tarde e Dino - todos ex-atletas profissionais - o clima seria competitivo. Colocando no grupo alguns membros da mídia e outros "staffs" da Swift que competem o ano inteiro, já me deixaria de fora de tentar qualquer disputa séria ou provocação!

Meu amigo e treinador aqui do Rio, Leandro Rodriguez, conseguiu adaptar alguns treinos para o tempo que eu tinha disponível, muitos deles precisaram ser feitos na bike de spinning devido as chuvas. Já tinha pedalado 100km antes, mas em períodos mais treinados. Não estava super preocupado, mas também não muito tranquilo.

Imprevistos - Mudando os planos

Pensando apenas em completar um percurso de 109 km, com 1.200 metros de subidas, não era preciso me preocupar, porém tiveram variáveis fora de controle.

Depois de quase 20 horas de viagem, fizemos um pedal leve no mesmo dia. No dia seguinte, comecei a me sentir resfriado e tomei alguns remédios, mas mesmo assim tínhamos programado pedalar todos os dias.

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Chegando em Cape Town - Muita montanha ?   Pedro Cury

A recomendação então era tentar não deixar a frequência subir muito nesses próximos dias. Mas como ? O rolé que fizemos de mountain biking na noite seguinte, me deu picos de 190 bpm! Nos dois dias seguintes também tivemos esse mesmo tipo de rolé. Agora era tentar cuidar, descansando e se alimentando bem.

Outra grande preocupação da equipe toda era o vento, que estava todos os dias com média de 40 km/h e não tinha previsão de parar. Em anos anteriores, a prova tinha sido cancelada porque o vento estava dando picos de 100km/h. E agora, será que eu poderia pedalar leve, apenas para completar, com um vento desses ?

A prova já tinha sido cancelada por causa dos ventos



Bikes Swift Carbon

Para quem não sabe, a marca nacional Sense adquiriu a sul-africanda Swift Carbon em 2016 e a maioria de nós andou em modelos Swift que já estavam em Cape Town. No meu caso, andei numa Swift Attack G2, bike com quadro de carbono, equipada com grupo Shimano 105. Este modelo utiliza uma configuração de componentes bem semelhante e exatamente o mesmo quadro da Sense Prologue Disc vendida no Brasil.

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Swift Attack G2 - A escolha pra prova   Pedro Cury

Um outro desafio aqui foi o tempo de adaptação com a bicicleta, já que a tive disponível apenas 2 dias antes da competição, mas já com uma programação fechada com outros compromissos.

A véspera da prova

No dia anterior, tivemos pela manhã um rolé de mountain biking que já estava programado e a tarde foi hora de preparar a bicicleta. Cada um teve uma programação e estratégia, alguns preferiram pedalar mais tempo e fazer micro-ajustes. Os mais experientes chegaram a tirar a graxa dos rolamentos e substituir por óleo para melhorar a rolagem, truque que eu nem imaginava. Para mim, foi apenas uma pedalada rápida de meia hora pra ver se a bike se encaixava bem.

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Véspera da prova - Ajustes finais nas bikes   Pedro Cury

É sempre muito interessante estar com um time experiente, peguei muitas de estratégias para usar na prova, desde como dosar a força até alimentação antes e durante. Como um mountain biker vindo das modalidades mais extremas, nunca me preocupei em levar mais do que 2 sachês de gel para qualquer tipo de pedal.

A previsão do tempo não era animadora. O vento não daria trégua, se mantendo um pouco abaixo dos 40 km/h e ainda poderia chover em algum momento da manhã! Era então preciso se preparar melhor!

Para completar o pacote, minha barriga resolveu entrar no modo "alto fluxo" na noite anterior a competição, mas felizmente foi possível contornar a situação sem grandes problemas. No fim, acabei levando 2 sachês de gel, batata cozida e balinhas de carboidrato. Felizmente, apenas duas garrafinhas bastaram para a prova toda, já que a organização preparou 7 pontos de hidratação bastante completos ao longo do percurso.

Vamos pra largada

A noite anterior a prova nunca é boa para muita gente. Consegui dormir bem, mas menos horas do que eu gostaria. Ainda assim, bem melhor do que alguns que mal dormiram.

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Visual bonito já na largada   Pedro Cury

Estávamos hospedados num local por onde passava a prova, então o trânsito estava parcialmente bloqueado e não teria carro suficiente para todos. Tivemos que pedalar 10km até a largada, como era tudo plano, acabou sendo um bom aquecimento.

35 mil inscritos!

Esse foi sem dúvida o maior evento ciclístico que já presenciei! A organização foi excelente em coordenar bem as largadas, que aconteceram em "ondas" para permitir um fluxo seguro.

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Quase todo nosso grupo largou no mesmo horário e portão. Porém, os mais competitivos já se separaram pra ir bem pra frente, enquanto eu me preocupava em fazer fotos e encaixe da minha câmera, como era de se esperar.

Enquanto alguns comentaram que estavam com aquela ansiedade pré prova, eu só lembrava de como eram ruins as largadas nas minhas provas de Downhill no passado. Não ter que se preocupar com um salto ou trecho super técnico é excelente! E ter banheiro na largada, um luxo!

A largada fluiu bem tranquila, os mais apressados já tinham se posicionado no inicio e o resto seguiu mais compactado numa velocidade baixa até a primeira pequena subida, onde o grupo começou a se separar um pouco mais.

Vento, estrategia nova ?

Meu objetivo era apenas completar a prova, parando pra algumas fotos e sem muito sofrimento. Até então não estava preocupado, apesar de não feito um tempo ideal de treino, não teria muito o que dar errado indo devagar, certo ? Com o clima competitivo formado, decidi mudar de ideia e tentaria fazer a prova forçando meu limite. Bemmm... e quando na noite anterior você descobre que as duas maiores subidas são no final ? O vento não parava. Será que poderia até aumentar ao longo da prova ?

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E realmente, o vento não deu trégua nos 40km iniciais, ficando mais tranquilo depois disso. Num dos trechos, encaramos um misto de vento com areia, dando aquele "efeito esfoliante" - ainda bem que eu estava de óculos.

Uma situação que eu nunca tinha presenciado foi descer rápido de speed com ventos imprevisíveis. É realmente uma situação perigosa, especialmente com tanta gente pedalando ao seu redor. O maior risco é estar numa posição mais relaxada e sofrer uma rajada forte repentina. Minha estratégia nesse tipo de descida foi colocar na marcha mais pesada possível para se manter fazendo força ativamente - mesmo tendo que frear mais para controlar a velocidade.

Vídeos



O cenário da prova é deslumbrante, por muitos quilômetros pedalamos ao lado do mar e era impossível não parar para tirar fotos. Andar junto com os amadores, tendo um nome tão brasileiro no number plate da camisa, chamou atenção de algumas pessoas que vieram conversar, perguntar de onde eu era e falar mais da prova.

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Para amadores, a prova é muito interessante. Existem 7 pontos de apoio, com água, isotônico, coca-cola e frutas. Alguns desses possuem massagem e fisioterapeutas. Participam pessoas de todas as idades, bicicletas e preparos físicos. Vi pessoas até com bicicleta de bicicross!! É realmente muito difícil não completar, mesmo sem muito treino.

Aprendizados e arrependimentos

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   Pedro Cury

Meu maior arrependimento foi não ter forçado um pouco mais e tentar fazer a prova no meu limite. Porém, era um dilema. Não estava totalmente preparado e se entrasse um vento mais forte nas duas subidas finais, poderia ter problemas. Ao mesmo tempo, pra fazer mais rápido eu deveria parar menos pra fazer fotos. Valia a pena ?

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Sempre quis imitar essa foto dos profissionais, mesmo não ganhando nada! Haha!

E sobre as fotos, vem mais uma aprendizado, que é ter mais suportes para guardar mais fácil o celular e a câmera, já que para uma prova dessas, seus bolsos vão estar mais cheios com comida. Na pressa de guardar a câmera no bolso, me descuidei e a lente acabou sujando com um resto de gel, dando borrões nas imagens finais do vídeo.

Vale a pena participar do Cape Town Cycling Lifecycle Week ?

O evento já é super tradicional e neste ano completou sua 41a edição. E não é só a prova de estrada, são nove dias de eventos relacionados ao ciclismo, incluindo provas de mountain biking, feira de exposição, competições e atividades infantis. A cidade é um espetáculo a parte! Lembra muito algumas das nossas mais bonitas cidades litorâneas e com muitas atividades, como praias, trilhas e diversas caminhadas para montanhas com visuais deslumbrantes.

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   Pedro Cury

O evento é muito bem organizado, seguro e com um clima amigável. O valor da inscrição ficou próximo dos R$ 350 e pode ser feito online. O vôo pela South African Airways, até o momento, não cobra pra levar a bike. O nosso real tem um poder de compra maior que nos EUA e Europa e por nossas contas correr esta prova é mais barato que correr alguns Gran Fondos mesmo da Ámerica do Sul. E então, vale a pena ?

Visite o site do evento em:https://www.capetowncycletour.com.
Sense Bike - https://sensebike.com.br/
Swift Carbon - https://swiftcarbon.com/


Comentários

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    KARLOS CENTELHA    

    KARLOS CENTELHA    

    QUE MARAVILHAAAAAAAA !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    2 mes(es) atrás - Denunciar


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    Carmem   

    Carmem   

    Bacana!
    3 mes(es) atrás - Denunciar


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    Degan    São Paulo - SP

    Degan    São Paulo - SP

    Que bacana o relato. Deve ser incrivel!
    3 mes(es) atrás - Denunciar




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