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Pedalando nos Lençóis Maranhenses

Um paraíso pouco explorado por bikers


23 JUN, 2009     Péricles     1    



Um grupo de amigos e guias turísticos fizeram um passeio especial de bicicleta para os Lençóis Maranhenses. Pode parecer uma rotina para eles, mas para quem nunca foi; um espetáculo. Não importa se a bike é de marcha ou não, a intenção é chegar no local e desfrutar um das maiores belezas naturais que o nosso país tem.

Esse quinto passeio foi mais do que especial para o nosso amigo Antônio José de Souza. Para ele, a descoberta da homenagem para um amigo da galera que se foi, deixou-lhe emocionado e feliz ao saber da verdadeira história daquele passeio tão especial.

Antônio nos conta:

“Eu fui de bike. Quem já foi andando pelo Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses sabe como é. Se você não foi e não sabe como é, ao menos imagine como seria complicado subir, descer, pedalar com uma bike por dunas de 10, 15, 20 metros de altura. Imaginou? Pois agora me ouça, ou melhor, como dizem os maranhenses: Pense... pense...: E acredite, é uma loucura. Uma incrível, maravilhosa, inesquecível loucura.

:: Sexta-feira, 24 de maio de 2009

Às 15 horas, São Luís/MA. Neste dia, horário e local despedi-me dos colegas de trabalho e já de mala e cuia, mochilas e bike no carro parti para Barreirinhas, a porta de entrada mais conhecida e estruturada dos Lençóis Maranhenses. Em Barreirinhas seria a largada do Passeio.

As dunas dos Lençóis Maranhenses não são novidades pra mim. Por diversas vezes e diversos caminhos já estive com elas aos meus pés, nos meus olhos, nos cabelos, nas roupas... Já pisei em todas as extremidades dos Lençóis. A novidade pra mim seria fazer essa travessia de bike.

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:: Sábado, 25 de maio

Chegando à Praça encontro o Mão, um dos organizadores do passeio, e somente mais quatro gatos-pingados. Me apresento, digo de onde venho e o que quero.

Mas o Mão está preocupado, reclama, gesticula, pergunta pelo Deibi, o organizador dos organizadores, e pergunta pelos outros. Ninguém sabe, ninguém viu, os telefones não atendem. O Passeio está por um triz. Chega outro ciclista, mais um, e mais outro. Mas nada do Deibi.
O passeio não começou às 6h e 30min, nem às 7h, nem às 7h e 30min. Opa!!! 7h e 30 min. É a hora em que começa a ser servido o café na Pousada onde eu havia dormido.... Corri, ou melhor, pedalei prá lá...

Café da manhã reforçado com frutas, ovos, sucos e muito carboidrato.

Às 8 horas voltei à Praça prá ver como estavam os preparativos, ou melhor, como estava a espera... "O Deibi ainda não apareceu." "Cadê o carro de apoio?" "O motorista da toyota viajou prá São Luís". "Não tem carro de apoio". "O Passeio vai ser adiado". Nesse ínterim conheço o Wellington, dono de um Salão de Beleza na cidade e que nas horas vagas organiza competições de bike nas trilhas ao redor da cidade. Ele me diz que a próxima competição será em setembro, com partida em um povoado chamado Cardosa (isso mesmo, Cardosa, com "a") às margens do Rio Formiga. Detalhe: A trilha é de subidas e descidas em piçarra, um pedregulho muito usado nas estradas de terra do Maranhão, e as bikes não podem ter câmbio. Segundo o próprio Wellington isso serve pra nivelar economicamente a competição. Ganha quem tem melhores pernas.

Ás 8 horas e 5 minutos chega o Deibi, um sujeito simples de fala mansa, com brilho nos olhos, e um tanto decepcionado pelos recentes acontecimentos que o fizeram pensar em cancelar o evento. A fuga dos apoios prometidos, o descaso e desinteresse dos órgãos oficiais responsáveis pelo turismo de Barreirinhas. As exigências do IBAMA para liberar o Passeio. Deibi me diria depois: - Tudo foi muito complicado. Nós estamos sozinhos nessa. Só com Deus. Mas ele será nosso guia. O Marcelo merece.

Marcelo... Ainda não havia conhecido esse. E como vocês também saberão agora, não conhecerei jamais o Marcelo. Não nesta vida.

Marcelo Brito, 25 anos, guia turístico de Barreirinhas. Morto em 27 de março de 2009, dois dias antes do aniversário da cidade de Barreirinhas. Morto por um tiro disparado por um filho de policial. Mais uma vítima da violência gratuita que esbarra conosco a todo instante, e como vocês percebem chegou até aos paraísos naturais. Morto, deixou mulher e filha. Nesse instante percebo que aquele 5º Passeio Ciclístico dos Lençóis Maranhenses seria uma singela homenagem prestada pelos guias amigos do amigo guia que se foi. E ainda na data de hoje, dia 25 de abril de 2009, lá no meio das dunas, seu nome seria gravado na areia.

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Com todos os transtornos, Deibi quase cancelou o evento. Ainda bem que não cancelou.

Pedalada por 2 km de asfalto precário em meio aos carnaubais e mais 1 km de piçarra e lama até a balsa do Santo Antonio para travessia do belo Rio Preguiças. Nesse meio tempo mais uma figuraça se juntou a nós: Steelbert, o atleta. Ainda falarei dele. Agora somos 15 ciclistas. Chegada à balsa. Travessia de cinco minutos. Rápida. Saída da balsa, também rápida. E parada para abastecimento. Abastecimento? O que é isso?

Minha mochila já estava abastecida: biscoitos com castanha, banana desidratada, mamão liofilizado, água mineral, pastilhas de cloro, energético em gel... Tenham certeza de uma coisa: A grande maioria desses meus companheiros de passeio sequer já ouviram falar dessas minhas "necessidades extremas". Desidratada? Liofilizado? Energy Gel? Cloro? Isso existe? Existe, e só eu sei o quanto me foram úteis.

E o abastecimento deles (nativos)? Água torneiral, três quilos de farinha d'água e algumas latas de sardinha. Tudo no embornal. Então vamos pedalar. Uau!

Tinha gente mais ansiosa que eu. E esses ansiosos "vazaram". Esse é o termo para aqueles que disparam na frente. Eu penava para me manter em cima da bike. Percebi nesse momento que meus pneus eram tipo biscoito e mais finos que qualquer outro na trilha. Minha bicicleta rabeava prá cá, prá lá, afundava na areia e parava. E pensei: Comecei mal, tô ferrado.

Mas nem todos "vazaram". Trezentos metros adiante, na mesma trilha de areião usada pelos carros "traçados" já tinha bike de pneu prá cima. Câmbio travado. Chave prá cá, chave prá lá, bicicleta consertada. E vamos de novo. Mais dois quilômetros e mais uma bike de pneu pra cima. Furado. Chave pra lá, chave pra cá, câmara trocada. E vamos de novo. Aproveitei para tirar o ar em excesso dos meus pneus, colocar ar em excesso nos meus pulmões, beber água, tirar fotos, respirar fundo e pedalar. Ainda assim, eu sempre na rabeira do grupo.

A trilha de areião até a Lagoa Azul é penosa sob todos os aspectos. Quer você vá de toyota, a pé, ou de quadriciclo. Então imagine de bicicleta. As chuvas torrenciais das últimas semanas transformaram parte da trilha em imensas lagoas negras. Nessa hora é bike na cabeça até o outro lado, depois volta, mochila na cabeça até o outro lado. Isso se repetiu algumas vezes. E quando a trilha não estava alagada o pedal era pesado, arrastado. Mas sempre tem uma salvação. E a salvação nesse caso foram as sombras dos buritizais e os igarapés trasbordantes de águas geladas que permitiram banhos revigorantes.

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Hora e meia depois avistamos as dunas ... Estávamos próximos da Lagoa Azul. Parada para o lanche coletivo. Refri de laranja com pão às margens de um igarapé, aos pés das dunas. Esse foi o lanche. E entramos nos Lençóis.

E entramos bem... Empurrando a bike duna acima. A primeira de muitas. Essa foi fácil. Em cima, montamos e a diversão foi total. O visual contrastante de dunas brancas e amareladas e lagoas azuladas e esverdeadas é um espetáculo. E quanto mais adentrávamos o Parque Nacional mais a sensação de liberdade tomava conta de todos. A empolgação também. Em mim batia uma sensação de "déjà vu", misturada com a esperança de que toda aquela maravilha natural pudesse continuar ali para meus filhos e netos curtirem aquela minha curtição.

E assim, naquela grandiosidade natural, mais me batia a sensação de solidão. Solidão? Mas e os outros ciclistas? Me fiz essa pergunta olhando pra frente e pude ver, duas dunas à frente, uns pontinhos negros cruzando o topo de uma duna gigante.

Logo eu e o Deibin que estávamos mais atrás reencontramos todo o grupo às margens de uma lagoa, alguns no alto de uma duna. As bicicletas alinhadas. Um dos ciclistas descia e subia pelo paredão da duna. O pessoal de cima gritava alguma coisa, o pessoal que tomava banho na lagoa abaixo gritava outras coisas. Tirei a máquina fotográfica da mochila para clicar um pouco. Quando enquadrei a duna vi que o caótico sobe e desce tinha algum ordenamento. E que ordenamento. Ele havia escrito com as pisadas o nome MARCELO. O Marcelo merece mesmo.

Novamente montamos e a galera da frente "vazou" de novo, de repente a leve correnteza de um rio. Isso mesmo, nessa época chuvosa, diversas lagoas transbordam, se emendam e rasgam as dunas mais baixas cortando os Lençóis como veias de água. Às margens de um desses rios todos aguardavam novamente. Hora de mais um lanche. Só a "broca" no estômago faz essa turma parar. O lanche foi farinha d'água com sardinha. Que delícia. Que fome...

Já passava de meio dia e o sol era inclemente e alguns já diziam: "Tá perto."

E seguimos, desta feita por uma região de vegetação rasteira e alagada. Dunas mais baixas e com alguma vegetação. Do alto de uma dessas dunas dava pra avistar uns coqueirinhos ao longe. O ciclista que seguia comigo na rabeira do grupo dizia que lá era o nosso destino de hoje. Pausa...
Vocês, leitores, já perceberam que eu estava na rabeira, mas nunca era o "último". Sempre havia um ou outro que seguia atrás. Acho que combinaram de serem os meus anjos da guarda e ficaram se revezando em minha proteção. Estariam ali caso eu precisasse. E logo, logo, eu precisaria.

Estávamos em um grupo de cinco atravessando uma lagoa de forma a cortar caminho e vi o Maduro seguindo numa direção contrária à de todos os outros. Deve estar voltando ou então endoidou de vez. E seguimos nosso "atalho". O grupo ia se espalhando pela imensidão dos lençóis.

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Mais uma travessia de lagoa e mais outra duna. Agora éramos só dois. Mais uma travessia e mais outra... duuuuna. Enorme. Acho que tinha mais de trinta metros de altura (eu já estava delirando). Subi com a mochila primeiro. Parecia ter sessenta quilos. Desci. Peguei a bike e comecei a subida. Pareciam seiscentos quilos e já perto do topo senti o resultado do esforço. Uma câimbra tomava conta de minha perna direita. Soltei a bike por um momento e tentei me alongar. Deitei no paredão e respirei fundo. Meu anjo da guarda do momento desceu pegou minha bike e completou a subida. Eu fui me arrastando duna acima.

Do alto avistamos ao longe o Restaurante do Antonio, vizinho, meio-irmão e concorrente do famoso Restaurante da Luzia. Quer saber mais sobre o camarão preparado pela Luzia? Então escreva no Google: "restaurante da luzia enquadra e pendura". E, Xongas, saboreie a deliciosa crônica do Ricardo Freire.

Mais uma descida serpenteando dunas e lagoas, mais um alagado, e bingo... Como diria minha filha de dois anos: "Zeeegaaamo". Pouco passava de 14 horas.

Estávamos em Canto de Atins. Chegamos. Cheguei. O último dos moicanos. O Maduro havia sido o primeiro. Minhas pernas estavam exaustas. Doloridas. E agora vou contar um segredo: Minha vontade naquele instante era tomar muitas cervejas geladas, comer peixe frito, comer camarão frito, dormir e na manhã seguinte embarcar no primeiro veículo que aparecesse no sentido Barreirinhas. Realizei todas essas as minhas vontades, mas o veículo eu dispensei. E digo já por quê.

Dispensei, pois a solidariedade de meus companheiros me incentivaram a continuar, isto é, retornar. E com o passar das horas fui tomando controle dos meus músculos e percebi que conseguiria voltar tudo aquilo. No meu ritmo, mas voltaria.

Na manhã seguinte montamos nas bikes e de novo fomos de encontro às dunas. Era só fazer o "track back". Saímos quase todos juntos, com exceção do Maduro e do Steebert que resolveram ficar mais um pouco. Mas como são ciclistas de areia respeitáveis, logo nos alcançariam e nos ultrapassariam. Ao chegarmos de volta à Lagoa Azul encontramos o Steelbert já com a bicicleta em cima de uma toyota que trazia turistas à lagoa. Pensei: Ora, o atleta vai voltar de carro? Não. E para minha surpresa (e só minha) a volta dele seria... CORRENDO. E assim ele fez os últimos 10 quilômetros de trilha pelo areião. CORRENDO.

Ao chegarmos de volta à cidade, após a travessia da balsa, uma cena de cinema. Steelbert, e agora também o Mão, correndo na frente do grupo de ciclistas que pedalavam em fila indiana. Uma bonita chegada. Já era quase 1 hora da tarde. Uma linda pedalada. O Marcelo merece. E fica o aviso: Ano que vem tem mais.




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Comentários

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    Júlia   

    Júlia   

    Olá! Soube que haverá novamente este Passeio Ciclístico dos Lençóis Maranhenses dia 15 de Novembro. Sabe com quem posso entrar em contato para obter melhores informações? Obrigada desde já!
    8 mes(es) atrás - Denunciar




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