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Nissan XTerra MTB 2007 - Relato de participante

     

Segue o relato de nosso amigo e participante do fórum Pedal, Cesar Cobra (Pato), que participou da MTB Cup do X-Terra 2007.

"Em 1996, na Ilha de Maui no Hawai, nascia o Xterra, antes conhecido com Aquaterra, a partir de um grupo de triatletas que desafiou um grupo de bikers, com o objetivo de por à prova qual tribo era mais forte. Onze anos depois, chegava às minhas mãos, um livreto sobre o maior evento de esportes outdoor do país, e a exemplo da origem, realizada num lugar paradisíaco. Só o fato de retornar a Ilhabela, era por si só, um grande motivo para marcar presença, para pedalar num evento desse porte então, seria muito fácil conciliar uma viagem familiar com um pedal casca grossa. Mal sabia o que me esperava.

A primeira cena que realmente me colocou no cenário da prova, foi a fila para a balsa repleta de bikes nos racks e nas caminhonetes. Não deixei de me encostar numa Strada com um sistema caseiro de fixação da blocagem dianteira da bike na grade de proteção do vidro. Aproveitei para elogiar e puxar conversa com o autor da gambiarra, que de cara já me manda a famosa pergunta: - Já fez alguma prova como essa ? Senti que minha protuberância abdominal teria causado uma certa desconfiança no meu novo companheiro. Respondi que já havia participado de várias competições de XC e que as intermináveis subidas e alucinantes descidas não seriam um grande desafio, visto que todas as últimas férias tinham sido nesse lugar. Lembrei daquele sorrisinho de canto de boca do cidadão durante boa parte da trilha que eu enfrentei no dia seguinte.

Na noite que antecedeu a prova, fizemos uma refeição moderada, à base de peixes, sem exageros, resistindo até a deliciosa cerveja estupidamente gelada que teimava em passar na minha frente. Na manhã seguinte fui dar um giro rápido com a Kona para ajustar os câmbios e soltar as pernas. Aproveitei para esticar até o ponto de largada do triathlon e fazer algumas fotos. Logo de cara, a organização da prova me surpreendeu. Centenas de staff’s, carros de apoio, ambulâncias, caiaques, lanchas e tudo que uma prova com a anuência da Nissan deve ter.

Tinha chegado a hora de começar o pedal pelos morros de Ilhabela. Grandes nomes, belas bikes num cenário fantástico, criavam a magia do evento, trazendo um friozinho na barriga. A largada simbólica até sairmos da área central, sob os flash’s e a narração, fez com que houvesse uma descontração momentânea em todos. Muitas brincadeiras entre os atletas, aplausos e palavras de incentivo por parte do público me traziam um estado de graça misturado com uma pontinha de orgulho por estar exatamente onde muitos bikes gostariam de estar naquele momento.

As subidas iam bem, com um giro rápido e constante. O grupo ainda estava compacto até começar o single track. Por algumas vezes, a fila teve que parar, pois alguns não conseguiam transpor os obstáculos com a agilidade necessária. Naturalmente, o bloco foi se espalhando e as trilhas ficaram mais pedaláveis. O trecho de mata fechada trazia a umidade tão desejada e benéfica para uma época onde a poeira chegava a queimar a garganta. Em uma pirambeira, onde todos desciam numa velocidade alucinante, eu deveria saber que aquele berro não seria um bom sinal. Um poeirão tomou conta de nosso pelotão e a primeira reação foi travar as rodas, mas uma garota estendida no meio do single, fez com que minha reação fosse defensiva. Joguei a bike lateralmente, dando um giro de 180 graus, fazendo com que a redução de velocidade fosse suficiente para me catapultar. Acabava de comprar um belo pedaço de chão na minha querida Ilhabela.

O mergulho foi alucinante, o desnível saía de 220m e despencava morro abaixo, trazendo aquela injeção de adrenalina. Lá em baixo o primeiro carrega-bike. Nada demais, somente um pequeno rio cristalino que descia pelas encostas. Transpus o rio e saíamos para uma área habitada, onde de imediato fomos cercados por inúmeras crianças que entravam na frente das bikes pedindo uma caramanhola ou um energético. Meus braços ainda tremiam do enorme esforço na descida, quando olhei para o GPS para conferir a altitude perdida. Para o meu desespero, o aparelho que deveria estar ali, havia desaparecido. Olhei em vão ao meu redor, parei a bike e por instantes a confusão na cabeça causou até uma náusea repentina. Nem o bando de crianças que me rodearam imediatamente após a parada me trouxeram à realidade. Perder o equipamento sem ao menos procurá-lo, mas obter uma boa colocação ou esquecer a competição e começar a busca? Dei duas pedaladas à frente e acabei fazendo a volta.

Confesso que deu vontade de jogar a bike no chão e berrar aos quatro cantos do mundo, mas isso só iria piorar, além de ser um baita mico. O pior foi escutar dos competidores com aqueles comentários do tipo: “Já desistiu? Não é para lá? Vai apreciar a paisagem?”. Larguei a Kona com um staff e subi o single track o mais rápido que pude, prometendo energético prá molecada que achasse o GPS. Nem lembro como expliquei o que era um GPS, mas sei que agora minha equipe de busca era composta de 5 garotos varrendo o morro que até alguns minutos atrás eu descia à bilhão por hora. A cada metro que subia, o arrependimento aumentava mais. O que eu mais temia era realmente ter perdido os dois, o GPS e a prova. Quando já estava preparando uma resposta mal educada para o próximo que passasse e perguntasse, uma garota abriu um sorriso e as palavras soaram como música. O cara que vinha logo atrás tinha achado meu GPS. Meu caro amigo da Trek dourada, ainda não me perdoei por não ter lhe perguntado o nome, mas muito obrigado de novo. Abri meu Camelbak e distribui os 3 energéticos que tinha ganhado da organização no check-in no dia anterior, recompensando a equipe de busca. Desci o morro correndo feito louco, montei na bike e retornei à prova.

O sol das 13:30h já estava me cozinhando debaixo da camiseta preta do patrocinador. O alívio veio no segundo trecho de mata fechada. Um trecho muito bonito, com muitas raízes e troncos. Algumas transposições de árvores caídas, córregos e novamente uma interminável subida. Aí começaram os primeiros empurra-bike. No topo desse morro, saindo do single track, uma visão fez com os olhos brilhassem. Apoiada nos fundos de um casebre, estava a placa de 10 Km. Fiquei eufórico, afinal, depois de perder o maior tempão caçando aparelhinhos, escalando e me arrastando morro acima, encontrar uma placa indicando somente mais 10 km, era uma coisa maravilhosa. Tratei de acelerar o ritmo e botar pilha no meu amigo da Trek dourada que vinha logo atrás. Não demorou para ele me corrigir. Na realidade estávamos no quilômetro 10, portanto, todo o perrengue que tínhamos passado até então, nem mesmo tinha chegado à metade. A partir desse ponto, foi comum vermos as desistências aumentarem devido a câimbras ou mesmo fatores psicológicos.

Chegávamos agora, ao primeiro ponto de água. Uma área habitada, ao pé de uma ladeira gigante, com algumas casas penduradas na ribanceira e alguns jeep´s e motos circulando. Aproveitei para completar o Camelbak e retornar ao trajeto o mais rápido possível. A concentração e a cadência por vezes me tiravam da realidade, fazendo uma verdadeira higiene mental, organizando a próxima semana, penitenciando pela semana anterior, enfim, interiorização total. Por vezes alguns moleques nos ultrapassavam, como que tirando um sarro por estarem com aquelas bicicletas pesadíssimas e passando aqueles seres coloridos com bikes futuristas.

Num PC, encontrei um competidor que por algum tempo nos acompanhou. Ele estava sem capacete, sentado ao lado do staff, sem luvas e visivelmente debilitado. Parei e questionei o que estava acontecendo. Ele me disse que a prova para ele estava terminada. Suas pernas estavam doendo, a panturrilha dava fisgadas e o sol estava torrando seus miolos. Tentei passar algumas palavras de incentivo, mas acho que meu semblante também não estava aquela coisa, pois ele foi irredutível. Finalmente disse que aquilo que ele sentia não era exclusividade dele, afinal, os super-homens, nesse momento talvez já tivessem terminado a prova. Segui avante desejando que ele encontrasse uma boa desculpa para ele mesmo, quando num futuro se questionasse pelos motivos que o levaram a desistir.

Já passávamos dos 20 km e o empurra-bike tinha se tornado uma constante. Agora, novos músculos doíam. As pontadas vinham de locais desconhecidos e nunca antes exigidos. Eu estava desmotivado e cansado. Meus energéticos, eu tinha doado à equipe de resgate de GPS´s no início da prova e me restava duas barras de cereais que viraram uma paçoca na boca. Cada vez que a trilha apontava para o mar, minhas esperanças aumentavam, as descidas eram agora um alívio e preparação para a próxima subida.

Matas, sítios e rios eram como colírio aos olhos. Muitas vezes, parei desejando loucamente uma máquina fotográfica para conseguir relatar toda aquela maravilha que estava à minha frente. Encontrávamos pessoas simples em locais divinos, que com certeza, sabiam da grandiosidade do local onde moravam, pessoas que não hesitavam em acenar aos competidores e dizer algumas palavras de incentivo. Em certo local, vi ao longe um trailer, aparentando abandono, mas ao se aproximar, vi que era habitado, e para minha surpresa, tinha uma vista deslumbrante do Canal de São Sebastião e mais, tinha uma piscina redonda de fibra de vidro bem na frente da porta. Fiquei alguns instantes imaginando aquilo à noite, com um bom vinho e bem acompanhado.

A partir desse ponto, a impressão era que até os staff´s estavam exaustos, visto que estavam ali desde a manhã, quando a prova de triathlon ocorrera. Mas mesmo assim, sempre sorriam quando avistavam os retardatários. Acho que até na esperança de ouvir que éramos os últimos. Lembro bem de um deles, que chegou a correr ao meu lado e me deu um tapinha nas costas e um sonoro “Parabéns, é a última subida.” Estas palavras me deram a energia necessária para pedalar como se houvesse uma matilha na minha cola. Transpus o morro como se pedalasse na ciclovia, desci pelo outro lado e a imagem do paralelepípedo me deixou eufórico. As ruas agora me eram conhecidas. As pessoas aplaudiam e parabenizavam-nos. Já na reta final encontrei vários companheiros que, com medalha no peito, gritavam e me incentivavam a chegar. Com grande orgulho e coberto de emoção cruzei a linha de chegada sozinho. A premiação dos campeões estava terminando e talvez, mais que aqueles que recebiam seus prêmios, naquele momento, eu era o maior vencedor.

Fiquei parado por alguns instantes próximo à linha de chegada, tentando me recompor da emoção e do desgaste. Peguei minha medalha de “Survivor” e de peito aberto, pedalei em direção ao hotel. No caminho encontrei mais alguns atletas que teimavam em pedalar até a linha de chegada, mas nenhum deles me trouxe tanta alegria quanto o meu amigo que lá em cima do morro, havia desistido com enormes dores no corpo. Ele pedalava com cabeça baixa, se arrastando, mas a me ver, abriu um sorriso enorme e me fez sinal de positivo, como que agradecendo.

Com um sentimento infinito de dever cumprido, retornei ao hotel, na certeza que no próximo ano, estarei lá novamente. Que venha 2008!"

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