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Entrevista - Wolfgang Soares fala sobre carreira, bikes e evolução do esporte

Petropolitano destaca detalhes de suas bikes atuais, conta sua história e ainda deixa dicas para quem está começando a pedalar

Atualmente correndo pela equipe de fábrica da TSW Bike, o atleta Wolfgang Soares Olsen, o Wolf, é um dos maiores destaques do mountain bike cross-country nacional da atualidade. Natural de Petrópolis, o ciclista de xx anos tem uma verdadeira história de amor com a bike - não só com o objeto, mas com tudo o que envolve o maravilhoso mundo da bicicleta.

Wolfgang Sares, atleta da TSW
Wolfgang Sares, atleta da TSW    Felipe Almeida

Em seu currículo, Wolfgang Soares possui títulos como um terceiro lugar no brasileiro de Maratona em seu primeiro ano correndo pela elite, além de duas vitórias na categoria Amerinca Man no Brasil Ride, uma em 2015 e outra em 2016 - na primeira ele correu em dupla com Avancini e na segunda com Sherman Trezza.

Há alguns dias, tivemos a oportunidade de bater um papo com o atleta. No texto abaixo, viaje conosco e conheça mais detalhes da vida deste petropolitando que já conquistou diversos título e está sempre em busca de mais.

Petropolitano MTB raiz

Muitas e muitas vezes, o primeiro contato de alguém com a bicicleta acaba definindo como será a relação dessa pessoa com a bike pelo resto da vida. Afinal, quando a experiência é apaixonante, raramente alguém consegue se livrar do "vírus" da bike. No caso de Wolf, suas primeiras pedaladas começaram antes mesmo de suas primeiras memórias mais consolidadas.

Wolfgang Soares, atleta da TSW
Wolfgang Soares, atleta da TSW    Arquivo pessoal

"Meus pais me dizem que com dois anos e meio de idade eles já tiraram as rodinhas da minha bike. Eu já gostava de pegar os pequenos morros e descer embalado, e desde sempre eu estava ali brincando com a bike", contou Wolf.

"Brinquei de outras coisas também. Soltei pipa, joguei bola, bolinha de gude, mas sempre andando de bike. Também usava a bicicleta para me locomover para a pelada ou para onde a gente ia soltar pipa. Sempre tive uma paixão muito forte pela aventura, adrenalina e pela liberdade que a bike proporciona", complementou.

Com o tempo passando, a vontade de Wolf de viver novas aventuras com a magrela acabou levando o atleta a ter o seu primeiro contato com as trilhas. Na época, ele pedalava uma bicicleta aro 20, o que certamente aumentava bastante a dificuldade do rolê.

Wolfgang Soares, atleta da TSW
Wolfgang Soares, atleta da TSW    Arquivo pessoal

"Com 9 anos tive meu primeiro contato com a trilha. No bairro onde moro, todos os domingos os bikers de downhill passavam para ir para uma trilha muito antiga e famosa que existe lá. Vendo a galera subir, decidimos com os amigos segui-los para ver qual era a dessa trilha, e aí aquele dia foi mágico.

Fomos subindo a montanha e, olhando para trás, fui vendo minha casa e meu bairro por um outro ângulo. Ai subimos mais um pouco e tivemos a vista da Baia de Guanabara. A sensação foi indescritível. Subindo uma montanha bem alta, vendo a cidade de outro ângulo, vendo o Rio de Janeiro naquela trilha que só passa bike mesmo", relembrou Wolfgang.

Como se isso tudo não fosse o suficiente, a segunda parte desta aventura acabou despertando - ou reforçando - a outra parte da paixão pela bike: a pilotagem.

"Quando chegamos lá em cima, viramos para o outro lado do morro e era o Downhill. Ai começamos a descer capotando, as bikes sem freio e o aro pequeno não encaixava nos rock gardens. Era muito engraçado. Sai daquele dia com muita vontade de voltar ali e fazer melhor. Aquela sensação de liberdade me dominou, e a partir dai eu comecei a ir com frequência para aquela trilha, superando um obstáculo de cada vez.

Costumo brincar com os garotos que estão começando a pedalar que a melhor escola para o MTB são os equipamentos inferiores que começamos. Aprendemos a usar os freios, a sentir a aderência dos pneus. Não tem suspensão, então quando você coloca uma, você sente o real efeito dela. Isso cria uma conexão muito profunda com a bike. As bikes sem freio, sem marcha ou suspensão foram grandes escolas para mim. Hoje gosto de lembrar disso e, quando faço uma curva com uma roda só, digo que foi graças à isso", explicou o talentoso atleta.

Intermodalidade, o segredo do desenvolvimento

Quem anda de bicicleta sabe que, via de regra, bastam duas pessoas estarem pedalando no mesmo lugar para que ocorra uma corrida de bike. Quando isso envolve jovens em fase de crescimento, isso é ainda mais válido. Felizmente para o esporte, isso aconteceu também com Wolfgang.

Segundo ele, foram os "pegas com a molecada" que derem início à sua vontade de pedalar de forma mais competitiva, investindo sempre no aumento de sua habilidade sobre a bike.

Wolfgang Soares, atleta da TSW
Wolfgang Soares, atleta da TSW    Felipe Almeida

"As vezes a gente olha um obstáculo como uma rampa, e ela é longa. Ai, vamos treinando, pulando rampas menores, investindo horas e horas. Ai, quando você volta naquela rampa longa, parece que ela encolheu. Essa sensação eu tenho com as horas de treino e de prática, que vão tornando as coisas mais fáceis. Foi um caminho natural, que eu vim desenvolvendo de forma bem gradual", complementou Wolf.

Para manter este processo de evolução constante, mesmo quando sua habilidade já era elevada, um dos segredos de Wolf foi investir na intermodalidade. Com isso, ele intercala seus treinos de XC com pedais com a galera do Enduro.

Wolfgang Soares, atleta da TSW
Wolfgang Soares, atleta da TSW    Felipe Almeida

"Eu pedalo com a galera do Enduro, principalmente com o Diego Knob. Somos amigos há muitos anos e estudamos na mesma escola. Andamos muito de bike juntos desde antigamente. Inclusive, a primeira rampa grande que pulei naquela trilha que falei antes, ele quem me deu a linha. Sou muito grato à ele por isso, já que foi ali que abriu muito minha pilotagem", afirmou.

"Acho que é um ganho de experiência muito grande, não só pela experiência dos pilotos de Enduro e Downhilll, mas também pelo nível e as possibilidade que o equipamento te dá. Isso abre um leque de linhas diante de você. As vezes você está na bike de XC e você vê só a linha obvia, para passar logo. Mas, as vezes, existe uma linha escondida, em cima de um morro, uma tangência diferente ou algo assim. Quando você treina com esses caras, sua visão é ampliada e isso é carregado pelo resto da vida", explicou.

"São infinitas trocas de experiência. Costumo brincar com o Knob, dizendo que eu vou puxando ele nas subidas e ele vai me puxando nas descidas. E disso ai as vezes saem super treinos, onde rodamos as cinco trilhas da cidade e chegamos em casa mortos. É muito maneiro", riu Wolfgang.

Falando de bike

Tendo passagem por diversas equipes ao longo de sua carreira, hoje Wolfgang representa a Equipe TSW Racing Team MTB. Por conta disso, o atleta hoje pedala com três bicicletas da marca de Governador Valadares.

Wolfgang Soares, atleta da TSW
Wolfgang Soares, atleta da TSW    Felipe Almeida

"Hoje eu pedalo três bikes da TSW. A Road de fibra de carbono TR1, uma MTB rígida que é a Evo Quest, também uma bike bem leve e arisca, e a Full Quest, que tem todas as tecnologias que foram desenvolvidas ultimamente. Ela é boost no quadro e na suspensão e tem ângulo da caixa de direção bem aberto, em 68 graus, que torna impressionante o conforto, a segurança e a estabilidade em terrenos acidentando", explicou.

"Ela absorve todos os impactos e não te dá aquela sensação que vai te jogar por cima do guidão. É inteira em fibra de carbono, então é uma bike leve. O kit têm 12 velocidades, é um Shimano XTR, e as rodas também são em fibra de carbono. É uma bike moderna, atual, leve e muito muito confortável.

Wolfgang Soares, atleta da TSW
Wolfgang Soares, atleta da TSW    Felipe Almeida

Segundo ele, as novas bikes full suspension de XC com geometrias modernas como a Full Quest tem realmente muitas vantagens como a economia de energia em terrenos acidentados e a maior facilidade de pilotagem.

"A geometria coloca você dentro da bike, então não precisa ficar buscando posições para compensar alguma coisa, ou mesmo aliviando em busca de conforto. Você fica relaxado em uma posição só, e a bike vai fazendo o dever de casa, te impulsionando. E com isso você anda rápido e economiza energia. É impressionante como ela te mantém inteira ao longo do pedal", explicou Wolf.



"Ao mesmo tempo, gosto de treinar de hardail para sentir a diferença entre as bikes e também para manter a técnica de pilotagem. A bike rígida ensina muito a aliviar o peso da roda traseira, e a full tira isso da gente. Você acaba confiando na bike e deixa de aliviar o peso, e é assim que acontecem muitos furos de pneu, por exemplo. Quando estamos com a pilotagem da HT viva na memória, em algumas situações essa aliviada poupa o equipamento", afirmou o experiente piloto.

Da pra correr com 120mm?

Atualmente, boa parte das bikes de XC mais "puras" tem 100mm de curso de suspensão. Porém, para Wolf, ter a possibilidade de correr com 120mm de curso pode ser uma carta na manga em algumas ocasiões.

"É possível correr com 120mm tanto na dianteira quanto na traseira, seja no XCO ou na Maratona. Vejo que, dependendo do terreno, a bike com mais conforto tem mais performance. Quanto mais acidentando, mais a bike confortável vai economizar energia, e isso é revertido em tempos mais baixos", explicou Wolf.

Wolfgang Soares, atleta da TSW
Wolfgang Soares, atleta da TSW    Felipe Almeida

"A suspensão dianteira que nós usamos, a Suntour Axon, tem três regulagens com 100, 110 e 120mm. Já testei as três e é perceptível que, com mais curso, a bike te da mais margem e mais conforto. Ainda não competi com 120, mas já treinei bastante e percebo que pode ser um trunfo na manga ter esse tipo de regulagem e alguns circuitos", complementou.

Segundo ele, o tempo sem competições durante a pandemia foi fundamental para realizar treinamentos e conhecer o equipamento. Isso é fundamental para usar a bike 100%, o que facilita bastante a escolha da bike certa, de acordo com a competição.

"Opto pela hardtail em terrenos muito enlameados, com muita aglomeração de terra. Evito a full nestas condições porque ela tem mais material para agarrar a terra. Prefiro a rígida também em percursos com muitas subidas com retomadas, já que percebo que a agilidade da hardtail nessas retomadas ainda tem vantagem sobre a full. No restante quase todo eu escolho a full, tanto na maratona quanto no XCO.", explicou.

Segundo ele, mesmo em subidas longas, o tempo na full é inferior. Para ele, a explicação é simples:

"Atribui isso à geometria do quadro e pelo conforto que sinto ao aplicar torque. Sinto que aplico com mais eficiência na full do que na rígida. Ela é a bike que subo mais rápido tanto em subidas lisas quanto nas acidentadas. Só sinto que perco mesmo em switchback muito travados", explicou ele.

Evolução do esporte

Nos últimos anos, as competições de cross-country, principalmente na Copa do Mundo e no Mundial, passaram a ser disputadas em circuitos cada vez mais técnicos. Isso aconteceu porque, graças a transmissão ao vivo, o formato evoluiu, deixando as competições mais atrativas para o espectador - a tendência, felizmente, também foi seguida nas pistas do Brasil.

Wolfgang Soares, atleta da TSW
Wolfgang Soares, atleta da TSW    Felipe Almeida

"As pistas de XC no Brasil estão sofrendo uma grande evolução nos últimos 5 anos, e um grande divisor de águas foi o Campeonato Brasileiro de 2015, que aconteceu aqui em Petrópolis. Foi uma pista que deu um choque em todos os atletas praticamente, porque tiveram obstáculos mais desafiadores, e de lá pra cá percebo que os atletas passaram a dar mais importância para os treinos técnicos, inclusive construindo obstáculos em suas cidades para o treinamento no dia-a-dia", explicou Wolf.

"Um dos grandes responsáveis por isso é o Henrique Avancini. Ele desenhou essa pista e segue fazendo as alterações nela até hoje, construindo novos obstáculos que ele vivencia lá fora. Então, todos nós acabamos sendo beneficiados por isso", comentou Wolf.

Para ele, o nível das pistas já não está tão longe do que já esteve em relação aos traçados da Europa, porém isso ainda não é uma realidade para o Brasil inteiro. O problema, conforme explicou Wolf, é que todo esse trabalho depende dos atletas que correm na Europa, que precisam voltar para o Brasil com a experiência para construir obstáculos em suas cidades - um "trabalho de formiguinha".

Wolfgang Soares, atleta da TSW
Wolfgang Soares, atleta da TSW    Felipe Almeida

"O processo de evolução é natural. Não adianta também construir obstáculos fora da nossa realidade e todo mundo se machucar, por exemplo. Acho que estamos no caminho, e todo mundo vem fazendo um pouco. Até na pandemia vimos muita gente colocando a mão na enxada para construir obstáculos", complementou.

"Tive a oportunidade de correr o mundial na Noruega em 2014 e a dificuldade das pistas foi um choque. De lá pra cá, vejo que temos obstáculos semelhantes e isso vem crescendo no MTB Brasileiro".

Dicas para quem está começando

De fato, como observado no Brasil e no restante do mundo, o esporte com bicicletas cresceu vertiginosamente durante a pandemia da Covid-19. Para Wolfgang, é importante que o iniciante tenha alguns cuidados neste primeiro contato com nosso esporte.

Wolfgang Soares, atleta da TSW
Wolfgang Soares, atleta da TSW    Felipe Almeida

"Nosso esporte cresceu muito nos últimos tempos. Acredito que muitas pessoas vão ver a bike como esporte, mas também como meio de transporte, ver que é possível percorrer aquela distância para o trabalho ou para o estudo usando a bike. Muita gente vai descobrir a bicicleta como meio de superação, de diversão e de adrenalina. Acho que o esporte nunca mais vai ser o mesmo depois da pandemia, já que o número de adeptos aumento demais", observou Wolf.

O conselho do atleta para quem está chegando é se divertir o máximo possível, aproveitando o convívio social com pessoas interessantes que praticam o esporte.

Wolfgang Soares, atleta da TSW
Wolfgang Soares, atleta da TSW    Felipe Almeida

"É um convívio saudável, e todo mundo que está entrando no esporte vai acabar encontrando um grupo que se identifique", comentou.

Além disso, ele frisa a importância de respeitar os limites e nunca deixar se seguir em uma progressão que respeite seu ritmo de evolução. Ele destaca o risco de tentar acompanhar outras pessoas que pedalam a mais tempo ou acabaram tendo uma evolução mais rápida.

"Você pode acabar e machucando ao tentar passar em uma rampa mais alta ou em um obstáculo que você ainda não esteja preparado. É ai que mora o perigo", disse Wolf, explicando que muitas vezes acontece da pessoa passar um obstáculo por sorte na primeira tentativa, mas isso não impede que um tombo aconteça em outro momento.

"Respeite também seu corpo em estresses extremos de quilometragem e intensidade. As vezes, você chega em um grupo mais avançado e vai querer acompanhar. Isso pode levar a um esforço que você não esteja preparado, e isso pode acarretar em algum problema", comentou Wolf.

"Vemos vários tombos por cansaço. As vezes a pessoa perde o reflexo e controle da bike. As vezes a mão escorrega do guidão, é um tombo bobo mas que pode machucar. Cair não é o objetivo de ninguém, ainda mais quem está começando em busca de contato social e saúde. Então, para evitar estas quedas, respeite seus limites e tenha paciência para ir conquistando sua evolução" complementou.

Carreira e futuro

Apesar da várias conquistas, Wolfgang acredita que sua carreira ainda vai crescer bastante. Porém, mais do que ser atleta, ele acredita que sua responsabilidade com o futuro do esporte vai além de pedalar sua bicicleta em alto rendimento.

Wolfgang Soares, atleta da TSW
Wolfgang Soares, atleta da TSW    Felipe Almeida

"Vejo minha carreira muito focada em alto rendimento e na performance. Vejo que estou em uma idade auge fisicamente e quero aproveitar isso ao máximo. Porém, já direciono minha carreira para outras atividades envolvendo o esporte, já que é o que eu sempre fiz e pretendo continuar fazendo.

Hoje estou estudando Educação Física e estou abrindo uma assessoria esportiva com a minha mãe, que é uma grande incentivadora minha e formada e pós-graduada em fisiologia do exercício. Com essa assessoria, busco ajudar alguns garotos jovens aqui da cidade, para passar adiante o que eu aprendi, e também aprender com eles enquanto ensino", disse.

"Quero contribuir com o desenvolvimento e com essa constante evolução do esporte que o mountain bike está vivendo. Fico muito feliz em ver esses jovens atletas escolhendo a bike para viver, e me realiza muito participar disso. Me destaquei nessa parte de pilotagem e vejo como uma oportunidade em passar isso adiante", disse.

"Em fevereiro de 2020, já realizei um training camp para esta parte de pilotagem e prendendo continuar trabalhando nessa área, estando o máximo possível envolvido no esporte", finalizou o atleta.



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