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Entrevista - Markolf Berchtold - De SC para o pódio da Copa do Mundo

O maior campeão de ciclismo extremo do Brasil conta sua trajetória, fala sobre suas novas bikes, passado e futuro do esporte

     

Do alto de seus 40 anos, Markolf Berchtold é um dos nomes mais rapidamente reconhecidos do cenário nacional do downhill. Afinal, não é de hoje que ele e sua família saíram da cidade de Schroeder, em Santa Catarina, para conquistar algumas centenas de títulos dentro e fora do Brasil.

Markolf é o brasileiro de mais títulos no downhill
Markolf é o brasileiro de mais títulos no downhill    Cesar Delong

No currículo de Markolf, além de 8 campeonatos Pan-Americanos, 13 títulos Brasileiros, duas pratas em etapas da Copa do Mundo e um Bronze Mundial na Master, soma-se uma história de incentivo ao downhill no Brasil, e uma trajetória que com certeza "levantou a régua" da modalidade no país.

Markolf foi o primeiro brasileiro a ter um pódio na Copa do Mundo de Downhill. Apenas algumas semanas depois do primeiro pódio em Copas do Mundo da história do ciclismo brasileiro, conquistado por Jaqueline Mourão no Cross-Country.

Abaixo, você confere um bate-papo que nós do Pedal.com.br tivemos com esta verdadeira lenda o downhill nacional.

Pedal: Como foram seus primeiros contatos com a bike ? O que levou você a começar a competir e quando ?
Meu primeiro contato com a bike foi com o início da minha vida. Meu pai, desde que eu nasci, me incentivou muito andar de bike por conta que nossa família toda sempre ter sido ligada aos esportes.

Eu comecei a competir com quatro anos em provas de BMX e com sete anos, comecei a competir de motocross. Em 1993, aos 13 anos o mountain biking entrou na minha vida, com uma bike Giant, toda rígida.

Markolf voando na Copa do Mundo em Balneário Camboriú, onde foi prata
Markolf voando na Copa do Mundo em Balneário Camboriú, onde foi prata    Pedro Cury

Pedal: Quais são seus maiores títulos ? Sabemos que você tem muitos!
Fui 13 vezes campeão brasileiro, 8 vezes campeão pan-americano e duas vezes pódio na Copa do Mundo com o segundo lugar. Tenho também um terceiro colocado no mundial master.

Minhas conquistas mais importantes, sem dúvida nenhuma, foram as duas vezes que subi no pódio de uma Copa do Mundo com o segundo colocado, uma vez em Balneário Camboriú e outra vez em Calgary, no Canadá.

Markolf ao lado de Luciano Kdra
Markolf ao lado de Luciano Kdra    Pedro Cury

Pedal: A Global Racing foi uma equipe que fez história entre 2001 e 2003. A ideia era ter os melhores atletas de downhill de cada continente. Você fez parte desta história! Tem alguma lembrança da sua carreira internacional, que te marcou ?

Uma história que sempre lembro foi quando a Global nos colocou para correr a prova de cross-country da Copa do Mundo do Canadá, na elite! Era para ser algo promocional, já que somos pilotos de downhill, mas no final a prova foi mais disputada do que própria prova de downhill !! Todo mundo querendo provar quem era mais rápido e forte no XC! A disputa foi acirrada entre eu e Greg Minnaar que acabou me ultrapassando na última volta.

Pedal: Como o cenário do downhill no Brasil e no mundo evoluíram da sua época pra cá ?
Olha complicado nossa evolução no país. Por conta de vários motivos, o principal as competições, vejo o Cross-Country evoluindo muito por conta de vários fatores, mas não vejo o Downhill crescendo da mesma forma infelizmente.

Nossa evolução no downhill na época foi muito grande, por conta do trabalho que fizemos. Meu pai nas competições, elevando o nível e número de provas e nossa dedicação nos treinamentos. Isso para não falar em toda a estrutura que montamos para estar bem preparados.

Acredito que as pessoas não entendem e não sabem qual o tamanho dedicação e o que tem que ser feito para virar um atleta no downhill de alto rendimento e alta performance.

Hoje ao preparar o meu filho para competir com provas de motocross e vejo dificuldades parecidas na modalidade.

Markolf e seu filho - Alguém duvida que será um campeão ?
Markolf e seu filho - Alguém duvida que será um campeão ?

Pedal: E você acha que hoje em dia alguma coisa mudou em relação a 10-15 anos atrás? Quais as dificuldades de hoje ?
A principal diferença é que hoje é muito mais competitivo. Temos muito mais atletas e detalhes minuciosos. Então, ainda mais que antes, o atleta tem que ser muito mais completo.

Pedal: Conte um pouco mais sobre seu primo Volkmar Berchtold. Acho que a primeira vez que vimos você em 99 aqui na Vista Chinesa no Rio, vocês já estavam andando juntos.
Nossa vida inteira andamos de bicicleta juntos. Treinamos juntos na academia, saímos para pedalar juntos, andamos de moto juntos, de enduro e downhill juntos. Então a gente é mais do que irmão! Ele também esta andando de Scott como eu.

Pedal: E falando da bike agora. Qual maior diferença das bikes de hoje e as de 10, 15 anos atrás ? Uma bike antiga seria competitiva hoje ?
As bicicletas de 15 anos atrás ou 20 eram muito boas para época, mas mudaram muito. Hoje, sem dúvida nenhuma, elas melhoraram muito por conta da tecnologia e materiais superiores. Os tamanhos da roda foram uma das principais diferenças que trouxeram vantagens.

Red Bull Desafio da Ladeira
Red Bull Desafio da Ladeira    Pedro Cury

Pedal: Vimos que você está andando com rodas 29 nas suas bikes, Você acha que as 29 são uma revolução também no downhill e enduro ?
Eu acredito que as rodas 29 são uma grande evolução. Elas atropelam melhor as coisas, tem melhor rolagem e menos risco de furos. Só em alguns trechos mais travados, por conta do tamanho da roda, a 29 pode ter um pouco mais de dificuldade. Mas são trechos raros pelo que a gente acompanha nas provas da copa do mundo ou do EWS.

Algumas vezes a roda traseira é um problema pela rigidez, mas acredito que em pouco tempo eles vão acertar melhor isso. Alterando algumas medidas de cubos daria para melhorar a eficiência.

No Enduro, sem dúvida nenhuma, as 29 são melhores. São muito poucos os circuitos que é 27.5 vai prevalecer.

Pedal: Nas pistas de downhill do Brasil, você acha que uma bike específica pro downhill é fundamental ou a de enduro segura a onda ?
Olha nas pistas mais duras tem que ser bikes de downhill mesmo. Na grande maioria!

Pedal: Você está competindo Enduro desde quando ? Como você vê essa nova cena ?
Fazem uns 4 anos. Acho bem bacana, gosto muito! Principalmente para curtir. Em termos de competição, gostaria de correr em pistas gringas! Também estou muito curioso para competir com bikes elétricas!

Pedal: Que legal! Você já tem uma e-MTB ?
Ainda não, mas é meu próximo projeto.

Markolf já teve aro da Vzan em sua homenagem
Markolf já teve aro da Vzan em sua homenagem    Pedro Cury

Pedal: E o que vc pensa sobre as MTB elétricas em geral ?
Acredito muito no potencial dessa nova tecnologia. Como fui toda minha vida muito ligado ao motocross, vejo as elétricas como facilitando a mobilidade e misturando com diversão. Acredito muito não só nas bikes como nas motos elétricas e não vejo a hora de pegar a minha.

Pedal: Qual você acha que foi a maior evolução da bike desde que você começou a pedalar ?
Com certeza foi a suspensões e os materiais! Acho que são as duas principais revoluções. O carbono entrou muito forte e também os amortecedores das bicicletas.

Os sistemas de amortecimento dos shocks melhoraram muito desde o início. Agora eles tem diversos ajustes de alta e baixa velocidade, pre-load e muitos outros. Ainda temos a tecnologia dos amortecedores a ar que estão sendo cada vez mais utilizados. Muita gente não acredita neles, mas acho que vai haver uma grande evolução ainda.

O carbono é muito bom por conta da rigidez, mesmo que o alumínio ainda seja muito bom também. Temos andado com bikes de alumínio da Scott e elas são muito boas. Mesmo com isso, ainda acredito no futuro do carbono.

Markolf saltando no Mundial de Downhill 2011 na Suíça
Markolf saltando no Mundial de Downhill 2011 na Suíça    Pedro Cury

Pedal: Quais bicicletas você está usando agora?
Uma Scott Gambler 930 é minha nova bike de downhill. No enduro estou com a Scott Ransom 920.

Pedal: Você chegou a modificar alguma coisa na configuração original das suas bikes ?
Nada! As bike já vem muito top.

Pedal: Você acha que o enduro acaba sendo uma porta de entrada para o downhill ? Ou talvez por ser mais fácil de praticar (não depender de resgate), vai acabar ganhando mais e mais destaque ?
Acredito que no país é muito difícil a prática do downhill por conta da logística. Então, no final para os praticantes se torna muito mais fácil a prática do Enduro.

Pedal: Aproveitando a ultima pergunta... Como você vê o futuro das modalidades de gravidade aqui no Brasil ? Tá vendo alguma melhoria ? Sente que o enduro trouxe mais praticantes que não vão chegar no downhill, mas pelo menos não ficaram presos no XC ?
Vejo um bom futuro pro mountain biking em todas as modalidades. Só que o desenvolvimento e crescimento é muito mais difícil no nosso país por conta da realidade econômica e cultural. Então, acredito que o downhill infelizmente fica prejudicado. As outras modalidades têm a tendência a crescer mais.

Markolf na dificílima pista de Champery em 2011
Markolf na dificílima pista de Champery em 2011    Pedro Cury

Pedal: Como a idade influencia um atleta de modalidade radical ? O medo aumenta ? A técnica compensa ?
São vários fatores somando que causam um certo receio de atletas mais velhos. Motivação e coragem, na grande maioria dos casos, diminuem bastante. Eu particularmente sinto que apenas precisaria de mais tempo para me dedicar o quanto gostaria. Acredito muito que a dedicação tem papel fundamental.

Vejo muitos atletas com idades avançadas andando ou competindo em alto rendimento e até melhorando conforme o passar dos anos, então isso é muito pessoal.

Pedal: Você tinha alguma viagem internacional que teve que cancelar pela pandemia, ou seu calendário era todo no Brasil ?
A ideia era correr o mundial de downhill, mas como tivemos esse problema a viagem foi cancelada. Nunca na minha vida toda, desde muito pequeno, nunca fiquei tanto tempo sem competir.

Pedal: Pra terminar: quais são seus principais conselhos pra quem curte as modalidades extremas? Alguma coisa que você gostaria de ter sabido no inicio da carreira ?
O maior problema quando iniciei era que nós não sabíamos quase nada. Fomos criando formas de treinos, criando pistas e saltos. Hoje a informação está na mão de todos!

Meu pai foi um ótimo professor e me ensinou muita coisa. Mas, se na época eu pudesse ter tido alguém como professor, seria tudo muito mais fácil. Então, para quente está começando e quer virar um profissional ou melhorar, a melhor coisa é procurar alguém que te ensine a treinar com metodologias.

Bikes de Downhill e Enduro de Markolf Berchtold

Scott Gambler 930 2020

A Gambler é a bike de downhill da Scott. O modelo foi totalmente atualizado em 2019. A bike utilizada por Markolf é feita em alumínio, com uma geometria capaz de encarar qualquer pista de downhill do mundo. O modelo tem detalhes técnicos bem legais, como a capacidade de ajustar a curva de progressividade da suspensão traseira.

Scott Gambler 900 Tuned 2020 - Bike de Downhill de Markolf
Scott Gambler 900 Tuned 2020 - Bike de Downhill de Markolf    Arquivo Pessoal

Ficha técnica

Quadro: Gambler em Alumínio
Suspensão: RS Boxxer Select 200mm
Amortecedor: X-Fusion Vector R 200mm
SRAM: X5 de 8 velocidades
Freios: Shimano de 4 Pistons
Pneus: Maxxis Assegai 2.5" DH

Mais informações na página da Scott Gambler 930.

Scott Ransom 920 2019

Conforme você conferiu aqui no Pedal, a Scott Ransom foi totalmente renovada em 2019. Além de ganhar o desenho comum com o restante da linha da Scott, a bike recebeu uma nova geometria mais agressiva, para encarar as pistas modernas de Enduro. Ela aceita pneus 27.5x2.8 ou 29x2.6, com um chip localizado no suporte superior do shock servindo para adaptar a geometria. Com rodas 29 e chip na posição "low", ela tem 64.3 de caixa de direção, 75 de seat-tube, 440mm de reach no tamanho M.

Scott Ransom 920/720 2019 - Bike de Enduro de Markolf
Scott Ransom 920/720 2019 - Bike de Enduro de Markolf

Quadro: Alloy SL 6011, 170mm Travel
Garfo: Fox 36 Float Performance FIT4, 170mm Travel, 44mm Offset
Shock: Fox Nude T EVOL w/3-Position TwinLoc Remote
Rodas: Syncros Revelstoke 2.5, 30mm Internal Width
Pneus: Maxxis Minion DHF 3C MaxxTerra EXO Front & EXO+ Rear (29×2.6in or 27.5×2.8in)
Transmissão: SRAM NX Eagle 1×12
Freios: Shimano MT520 4-Piston

Mais informações sobre a linha Scott Ransom 2020.

Siga Markolf no Instagram: https://www.instagram.com/markolf17/,


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Comentários

O site está muito top!!1 A muito tempo esperava uma entrevista com o Markolf, esta lenda viva do Mtb. apesar de morar a 10 kms dele nao tive oportunidade de conhece-lo pessoalmente. Obrigado PEDAL.COM!!!

Monstro do DH. A modalidade não seria a mesma hoje em dia no Brasil sem o trabalho desse cara

Um orgulho para Santa Catarina e para o Brasil