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Entrevista - Jaqueline Mourão fala sobre novos desafios, idade e seu novo livro

Confira nosso papo exclusivo com a atual campeã brasileira de XCO e líder no ranking para Tóquio 2020


2 MAI, 2019     Gustavo Figueiredo     3    
     


Até cerca de dois anos atrás, Jaqueline Mourão era conhecida pelos mais veteranos e aficionados pelo mountain biking como um dos principais nomes do passado do esporte. Até porque, a última aparição da atleta em uma competição importante da categoria aconteceu em 2008, durante os jogos olímpicos de Pequim, na China. De lá para frente, ela se aposentou do MTB e passou a focar suas atenções no esqui cross-country e no biathlon, modalidades em que ela representou o Brasil nos jogos olímpicos de inverno entre 2006 e 2018, quebrando assim diversas barreiras para o esporte nacional.

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Jaque Mourão   Pedro Cury

Ao longo de sua jornada inicial no MTB, Jaque foi oitava colocada no Campeonato Mundial de Maratona em 2003 na Suíça e campeã na Copa do Mundo de Maratona em 2005 no Canadá, resultado até hoje nunca igualado. Ela também foi quarta colocada na etapa de Balneário Camboriú da Copa do Mundo de XC em 2005 - primeiro pódio brasileiro na Elite da modalidade entre homens e mulheres e o único feminino até hoje.

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Jaque e Absalon em 2005   Pedro Cury

Porém, em 2018, a ciclista que na época tinha 42 anos voltou a competir de mountain biking e voltou da "aposentadoria" para vencer o campeonato brasileiro de XCO, superando atletas muito mais jovens mas também com grande experiência. No começo deste ano, Jaqueline Mourão foi anunciada como a mais nova contratação da Sense Factory Racing, iniciando assim uma nova fase em sua carreira.

Duas vezes mãe e rumo aos jogos!

Mesmo já tendo participado de diversas olimpíadas, a fome pelos jogos de Jaqueline Mourão parece não ter diminuído - algo normal para atletas jovens mas, não tão comum nos mais veteranos. Atualmente, ela lidera o ranking olímpico e é a brasileira mais bem cotada para participar da prova de XCO em Tóquio 2020.

Curiosamente, quando ela resolveu voltar para as competições de MTB, Jaque não abandonou sua dedicação ao esqui cross-country. Com isso, ela agora precisa dividir sua atenção entre os treinos e competições em duas modalidades em altíssimo nível e seus dois filhos: a Jade, de 4 anos, e o Ian, que têm apenas 8 anos - de quebra, ela ainda arrumou um tempo para escrever um livro chamado "A menina que sonhava seguir o por do sol", lançado neste fim de semana durante a segunda etapa da Copa Internacional de MTB, em Araxá, competição na qual ela foi a brasileira mais bem colocada na classificação geral.

Meus filhos são minha vida. Eles trazem muita alegria e, com certeza, me fizeram mais forte


"Antes eu tinha que conciliar duas carreiras esportivas, a de verão e a de inverno. Agora, tenho que conciliar a vida de mãe e a carreira esportiva de bike e também a de esqui cross-country. Tem sido desafiador, mas meus filhos são minha vida e eles trazem muita alegria. Com certeza me fizeram mais forte", afirmou a atleta.

Atualmente, Jaque vive no Canadá, mas as viagens internacionais para competir não só provas no Brasil, mas também em etapas da Copa do Mundo de XCO e no Mundial da modalidade acabam sendo um grande desafio de logística familiar para a atleta. "Quando podem, meus filhos viajam comigo. Enquanto o Ian estava no pré-primário era mais fácil, mas agora ele não pode perder aulas, então isso tem sido um desafio", explicou Jaque.

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Jaque no Rio em 2005   Pedro Cury

"Em Petrópolis, na primeira etapa da Copa Internacional de MTB, eles estavam aqui comigo. Foi uma oportunidade ótima para eles brincarem com os primos e a família. Eles falam português fluente, então conseguem brincar com os primos, visitar a tia e ficar com a avó - aquela coisa gostosa que nós só temos aqui no Brasil", contou.

A Menina que sonhava seguir o por do Sol

Depois de competir em alto nível no mountain biking durante sua juventude, desistir de tudo por conta das dificuldades da época, migrar para um rigoroso esporte de inverno por 10 anos, ser mãe, participar de quatro jogos olímpicos e voltar para o mountain biking aos 42 anos, certamente Jaque é uma pessoa com muita experiência para passar. Com o lançamento de seu livro, a atleta espera transmitir um pouco de sua história para uma nova geração de pessoas.

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O novo livro de Jaque

"O por do sol na região de Belo Horizonte é muito bonito. Ele vai tocando cada montanha e acaba sumindo nesse mar de morros. Isso marcou muito minha infância e sempre quis ter uma máquina para seguir o por do sol. Finalmente hoje, em minha vida esportiva com a minha bike, consegui seguir meus sonhos. O meu por do sol", explicou a belo-horizontina.

Segundo ela, o objetivo é estimular o público infantil e infanto-juvenil a nunca desistirem de seus sonhos, inclusive fazendo visitas em escolas para contar um pouco sobre sua jornada. "A história do livro mostra que seguir seus sonhos nem sempre é fácil, a importância dos pais neste processo e uma série de valores que considero importantes", explicou.

O livro é um trabalho conjunto de diversos profissionais como a ilustradora Carol Juste e a revisora Salete Turcati, que ajudaram não só a criar o material mas também acrescentar nele uma temática muito importante nos dias de hoje, o empoderamento feminino.

"Tive uma equipe muito legal que me ajudou a introduzir o empoderamento feminino no livro, para já apresentar isso para as meninas. Estou muito feliz e aprendi demais com o projeto, desde como registra um livro, códigos de barra e produção, então foi um trabalho muito legal. Se Deus quiser ele vai atingir seu objetivo final", afirmou Jaque.

Segundo ela, o livro é mais um resultado do trabalho que ela vem realizando junto com seu patrocinador. "Tinha um sonho muito antigo de escrever este livro e mais uma vez a Sense foi muito importante nisso. Eles me ajudaram em minha carreira esportiva e agora estão apoiando este projeto, então estou muito feliz", disse.

Motivação e vitórias

Essa motivação em seguir sempre em frente resultou em diversas vitórias nesta temporada, com Jaqueline figurando quase sempre como a mais rápida do dia ou a brasileira mais bem colocada em provas internacionais.

"Em maio do ano passado estava na posição 747 no ranking da UCI. Hoje, depois de uma escalada bem longa, finalmente voltei para a primeira página com 683 pontos e a 36° posição. Largando lá no fundo nas provas de Copa do Mundo, foi preciso acreditar muito para seguir em frente. Hoje tenho a honra de vestir a camisa de campeã brasileira e isso me deixa muito feliz", explicou.

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Jaque no Canadá em 2005   Guido Visser

"Essa nova etapa de estar em uma equipe foi muito legal desde o primeiro dia. Sinceramente, tudo foi bem grandioso. Quando cheguei na Taça Brasil algumas pessoas já estavam me esperando, minha bike já estava montada. Por isso a vibe da equipe está muito legal. São pessoas queridas que tem um amor em comum. A convivência com Rubinho, Mario e Giugiu no Pan-americano só fortaleceu isso, com cada um sempre ajudando da forma que podia", afirmou Jaque.

Nova fase esportiva e mais forte do que nunca

Para competir no nível mais elevado do esporte, não existe um limite de idade oficial. Porém, muitas vezes, a própria dificuldade adicional em manter o desempenho e a pressão social acabam afastando atleta que teriam boas condições de seguir competindo. Segundo ela, a experiência acumulada ao longo dos anos remodelou não só seu corpo mas também sua mente, o que inclusive mudou sua personalidade.

"Nunca questionei minha idade. Acredito que ser mãe me fez mais forte, assim como estar no inverno. Passei 10 anos treinando muito e nunca parei de competir em condições extremamente duras. Isso remodelou meu corpo, meu preparo físico e mentalmente estou muito melhor. Antigamente era muito estressada, ficava nervosa antes das provas e a maturidade me fez muito bem. Quando parei com o mountain biking estava muito frustrada com regras de última hora para as olimpíadas e hoje tiro isso de letra", explicou.

Os anos também trouxeram importantes oportunidades de conviver com vários atletas, dentre elas a lendária norueguesa Gunn-Rita Dahle, atleta que hoje tem 46 anos e se aposentou no ano passado, com direito a uma vitória espetacular da Copa do Mundo de XCO.

"A troca de experiência com atletas internacionais é muito legal. Reencontrar a Gunn-Rita no mundial de Lenzerheide no ano passado foi demais. Ela sempre foi meu termômetro foi até os 45 anos, então deve ser mais ou menos o que vou fazer no mountain biking", afirmou.

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Jaque e Giugiu, duas gerações do MTB Feminino   Pedro Cury

"Agora no Pan-americano também pedi várias dicas para atletas como a Catharine Pendrel, já que estava afastada há muito tempo. Queria saber sobre o short-track, como me recuperar e outras questões. O mountain biking é uma comunidade muito legal e todos querem se ajudar. Trata-se de um esporte especializado que precisa que as pessoas envolvidas nele estejam unidas para poder alavancar a modalidade", afirmou.

Segundo ela, o trabalho que Henrique Avancini vem desenvolvendo no Brasil é incrível, assim como o desenvolvimento do MTB nacional."O relacionamento com o time brasileiro no Campeonato Pan-Americanos foi muito legal. Pude girar com a Vivi Favery e com a Letícia Cândido e nós pudemos trocar experiência, falar sobre mil assuntos e reconhecer a pista juntas. Foi uma grande oportunidade de interagir mais com as atletas do Brasil, o que é muito importante para a evolução do esporte", disse.

Sinta-se bem

Segundo Jaque, manter a boa forma e sentir-se bem com o próprio corpo é um dos principais motivos para ela nunca ter se aposentado das atividades físicas. Por isso, o conselho da campeã é seguir treinando e competindo, sempre buscando o estímulo certo para manter o corpo em dia.

"Acredito que se tivesse parado esses 10 anos não estaria tão bem. É tão bom sentir-se bem e com o corpo forte. Até mesmo para os amadores, o estímulo da competição é muito importante. As vezes você fica só treinando em ritmo mais baixo e vai perdendo o preparo físico. A competição é um ótimo estímulo, é um ambiente legal, com pessoas interessantes e que fazem parte daquele circulo esportivo que a gente ama tanto. Acho que sou uma eterna apaixonada por esportes", disse.

A idade não importa, o que vale é a cabeça da pessoa, se ela sente que ainda tem gás e força para conseguir bons resultados



"Aqui no Brasil é incrível como temos atletas amadores fortes. As vezes eu até tento estimular atletas, principalmente as mulheres que correm por idade a voltarem para a elite, já que elas são muito fortes. A idade não importa, o que vale é a cabeça da pessoa, se ela sente que ainda tem gás e força para conseguir bons resultados. O atleta conhece o corpo melhor do que ninguém", afirmou Jaque.

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Sense Factory Racing MTB 2019   Pedro Cury

"Meu objetivo final é a performance. Acredito que posso melhorar ainda mais no ranking e quero andar em uma prova internacional, sentir que dei tudo de mim e que aquele resultado me pertence. Quero sair realizada, sair sabendo que fiz tudo o que podia. Estou vivendo cada segundo e em cada obstáculo eu penso 'está sendo tão bom, vamos seguir em frente'. Agora meu foco é todo no positivo e o que quer que venha está sendo incrível, então acho que esse fator mental de estar pensando em coisas boas, de estar em um ambiente positivo, em uma equipe extraordinária com pessoas especiais e que amam o esporte está sendo incrível", concluiu Jaqueline.