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Entrevista - Edu Ramires - De multicampeão à técnico da equipe Squadra Oggi

Do início da carreira no BMX, passando pelo MTB em nível mundial até chegar no comando técnico da Squadra Oggi

Quem anda de bike há algum tempo ou tem um interesse um pouco maior sobre o esporte do Mountain Biking certamente já esbarrou com o nome Eduardo Ramires. Afinal, o atleta de 56 anos de idade tem uma enorme experiencia com bicicletas de diferentes modalidades, tendo conquistado centenas de títulos correndo de BMX e também de MTB.

Hoje, Edu Ramires compartilha toda a sua experiencia com atletas mais jovens como diretor técnico da Squadra Oggi, equipe de atletas profissionais de MTB Cross-Country Olímpico e Maratona da Oggi. Na última semana, tivemos a oportunidade de bater um papo com esta lenda viva do esporte, em uma entrevista que você confere abaixo.

Arquivo Pessoal
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Primeiros contatos com a bike

A primeira vez que Edu teve um maior contato com a bicicleta foi quando sua irmã mais velha ganhou uma de Natal. De cara, ele não se interessou demais pela brincadeira. Porém, com o passar do tempo, todos os seus amigos ganharam bicicletas.

"Aí acabei aprendendo, mas isso somente quando tinha 11 anos de idade. Um pouco depois já percebi uma certa afinidade e aí já viu: eu e meus amigos começamos a fazer umas rampas de madeira pra saltar no meio da rua mesmo, com isso acabei destruindo a bike da minha irmã", riu lembrando-se Ramires.

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Nos anos 1970, o Brasil foi tomado por uma onda mundial chamada BMX, ou bicicross. Naquela época, o MTB, recém criado nos Estados Unidos, ainda não havia desembarcado em terras tupiniquins e, com isso, as bikes aro 20 eram as rainhas da criançada.

Equipe Monark

"O primeiro contato com o BMX veio logo depois, mais ou menos em 1978 ou 79, quando ficamos sabendo de uma ação que a Monark estava fazendo em uma área próxima ao Joquey Clube de São Paulo. Quando chegamos, encontramos somente uma descida com uma rampa e uma perua Kombi da Monark, com varias bicicletas BMX. Conhecemos também o Sr. Camacho, que coordenava a ação", contou Edu.

"O resultado deste primeiro contato foi o convite para integrar a equipe Monark de BMX, como não haviam pistas, a equipe na época tinha um calendário de apresentações em festividades diversas, onde éramos convidados a nos apresentar", complementou.

Arquivo Pessoal
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Na época, tudo era bem simples. Com uma rampa tipo mesa montada no asfalto e alguns colchões tipo tatame, os jovens atletas saltavam por cima de diversos obstáculos, inclusive sobre o Sr. Camacho, utilizando bicicletas BMX Monark tanquinho - obviamente como todos os acessórios depenados, quadro de aço e seu "espetacular" freio de contra-pedal.

Seguindo a carreira

Como você percebeu, até aquele momento, o contato de Edu com a bike já tinha uma certa seriedade, mas tudo não passava de uma grande brincadeira de criança. Porém, Edu rapidamente sentiu que sua afinidade com a bike poderia se transformar em algo muito mais sério.

Arquivo Pessoal
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"Tudo o que estava acontecendo me despertou algo a mais, e ai fui a fundo atrás de desenvolvimento. Em pouco tempo o BMX ganhou força com a Caloi também entrando no cenário e novas pistas e campeonatos começaram a surgir", explicou.

Segundo ele, os primeiros passos foram aprimorar sua técnica e seu condicionamento físico para participar de corridas de BMX. Para isso, o jovem Edu usou a cabeça.

"Descobrimos na época que já haviam revistas americanas de BMX. Então, comprei uma e levei para a mãe de um amigo meu, que era professora de inglês, para traduzir um artigo de um piloto americano. Esse artigo norteou os meus treinamentos, com dicas de alongamentos e até mesmo na dieta. A partir daí, tive uma noção de como se preparar realmente, pois na época não tinha orientação de ninguém neste sentido", relembrou Edu.

Arquivo Pessoal
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Com o esporte ganhando corpo e Ramires evoluindo cada vez mais, os títulos rapidamente começaram a chegar, juntamente com a oportunidade de viajar para fora do Brasil. Porém, naquela época, a vida de atleta era até mais difícil do que hoje em dia, com as dificuldades econômicas sendo muitas.

Arquivo Pessoal
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"Com dedicação consegui conquistar diversos títulos como de Campeão Paulista, Copa Brasil e Campeonatos Brasileiros. O passo seguinte seria partir para a meca do esporte, os Estados Unidos. Foi um período difícil até que isso acontecer, mas enfim, consegui partir pros EUA em 1985. Tive a oportunidade de participar de alguns campeonatos locais e até mesmo nos nacionais, conseguindo alguns bons resultados, que até renderam uma graninha de premiação. Mas a dificuldade de sobrevivência para pagar as contas me fez parar para trabalhar", contou Ramires.

Conhecendo o Mountain Biking

Fora do Brasil, ainda nos anos 80, Edu teve seus primeiros contatos com o esporte que se tornaria uma verdadeira febre mundial, o MTB, que desembarcaria com força total aqui no Brasil, e em boa parte do mundo, apenas nos anos de 1990.

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"Em meados de 87 conheci um gerente de loja de bike que era meu vizinho. Quando fui visitar a loja, ví os primeiros modelos de Mountain Bike. Lembro que, na época, as opções eram Gary Fisher ou Richey. Mas, por incrível que pareça, quando resolvi comprar a minha, preferi uma MTB da Peugeot, que tinha uma geometria mais parecida com o BMX", disse Edu.

Aproveitando-se dos passe0ois que a loja organizava aos domingos na região de Los Angeles, ele acabou ganhando mais experiencia na modalidade. Graças à sua base no BMX, tudo o que Edu teve que fazer foi adaptar seu corpo ao esforço físico contínuo do MTB.

"Já em 1988 participei das primeiras competições na região de Los Angeles, o que me deu um novo horizonte. Neste mesmo ano participei do Mundial, ainda não unificado pela UCI, em Mammoth Mountain, na Califórnia", disse Edu.

Arquivo Pessoal
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"Graças a Deus tive uma boa base familiar e muito apoio, com isso pude desenvolver o meu melhor e em duas disciplinas, onde pude conquistar diversos títulos: Campeão Campeonato Monark BMX, Campeão Campeonato Caloi BMX, Bi-Campeão Copa Brasil BMX, Bi-Campeão Brasileiro BMX, Campeão Paulista MTB e Campeão Elite de varias etapas do Campeonato Brasileiro MTB, que no inicio era disputado em 3 etapas", explicou Ramires.

Em 1989, Edu voltou para o Brasil e participou de um projeto inovador, que cuidaria de sua preparação para o mundial daquele ano, sub os cuidados do treinador José Rubens Delia. Em um projeto multidisciplinar com voluntários da USP, ele teve apoio de musculação, nutricionista, Ioga, Informática e fisioterapeuta, além de fazer vários treinos no velódromo da USP. O resultado ?

Arquivo Pessoal
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"Foi sensacional e recomendo para quem tiver acesso! O resultado foi o Título Mundial da categoria Amador, disputado com outros 180 atletas", contou. Porém, assim como relatam muitos atletas, as condições do esporte no Brasil nos anos 1990 era muito sofrida, com muito esforço e pouco ou nenhum retorno financeiro, o que levou muitos atletas a uma aposentadoria precoce.

"Infelizmente o esporte no Brasil não era tão desenvolvido na época, ai meu desenvolvimento ficou comprometido. Parei e só retornei a competir novamente já como Master. Na categoria, conquistei vários títulos Brasileiros e três títulos Pan-americanos. Atualmente detenho o título Brasileiro na categoria 55/59", explicou Edu.

Passando o conhecimento para frente

Com uma enorme experiência e literalmente décadas de corridas no bolso da camisa de ciclismo, o início da carreira de técnico de Edu Ramires era apenas uma questão de tempo, mas começou de uma forma um tanto quanto triste.

Arquivo Pessoal
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"Ser um atleta de corpo e alma nos priva de muitas coisas, mas o sentimento de um objetivo ser realizado não tem preço. Fiz o possível dentro das condições que me foram fornecidas, graças a Deus sem muitos recursos, fui até onde meu corpo suportou e sou totalmente realizado", contou Edu sobre sua carreira como atleta.

"Lógico que existe sempre algo que poderia ser diferente, no meu caso um desejo enorme era participar de uma Olimpíada como atleta, mas como peguei o BMX e o MTB no início, nenhuma delas fazia parte dos jogos quando estava no meu melhor", explicou.

"Pude me satisfazer de alguma maneira participando das Olimpíadas de Pequim, como diretor técnico, na companhia dos atletas Rubens Donizete e Jaqueline Mourão. O ambiente é magico", afirmou Edu.

Arquivo Pessoal
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Segundo ele, a transição para técnico foi uma surpresa negativa que aconteceu quando Toninho Fernandes, dirigente da Caloi, faleceu nas vésperas de uma competição internacional no Equador, deixando a delegação sem um dirigente.

"Recebi um telefonema do Sr. Bruno Caloi, que era o Presidente da CBC na época, com o convite. Eu era já experiente em eventos Internacionais e acabei ficando à frente da delegação Brasileira durante 6 anos, foi um grande aprendizado. Hoje sigo como diretor técnico da Squadra Oggi.

Evolução do esporte

Como integrante da vanguarda do MTB nacional, Edu pegou todas as grandes transformações técnicas no esporte.

"Tive o prazer, e ainda estou tendo, de ver todo o desenvolvimento da tecnologia empregada nas bikes. Passei por todas as gerações de equipamentos. Do inicio com bikes de 18 marchas, depois 21, 24 e agora 12 velocidades. Andei com pedais com firma pé, que você literalmente ficava amarrado na bike! Os capotes eram rolando com a bike junto, nada agradável!", relembrou.

Arquivo Pessoal
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"Sem suspensão nenhuma, mais conhecidas como queixo duro. Te digo que não tinha tempo ruim pra descer. Lembro andando na Serra do Japi, utilizando os primeiros modelos de ciclo computador, que registrarmos 75 km/h! Hoje temos equipamentos maravilhosos com suspensão integral, cambio eletrônico. É um sonho", complementou Edu.

"Nos dias de hoje os recursos são extraordinários. temos equipamentos de toda natureza. Digo que um bom equipamento ajuda sim, mas a vontade e a dedicação também fazem uma grande diferença, não importa o equipamento que tiver.

Hoje nossos atletas são privilegiados, pois temos uma gama de equipamentos de primeira linha. Capacetes, sapatilhas Giro, óculos 100%, ferramentas Park Tool, pneus Kenda, lubrificantes Finish Line. Nas bikes temos o modelo MTB Full Cattura Pro T 20 e nossa bike rígida Agile Squadra, todas duas equipadas com o que há de melhor no mundo", afirmou Ramires.

História com a Oggi

Quem trabalha e vive no mundo do ciclismo nacional sabe que, no geral, a comunidade da bike é bem pequena, com todo mundo conhecendo todo mundo. Obviamente, alguém que roda no meio há décadas, com um trabalho de destaque como Edu Ramires, dificilmente passa desapercebido. Por isso, a relação com a Oggi, marca nacional de bikes, começou de maneira bem natural.

Arquivo Pessoal
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"Minha ligação com a Oggi / Isapa veio depois que me desliguei de uma outra marca. Por um acaso tive uma reunião para fechar um patrocínio de apoio ao meu evento, o MTB 12 Horas. Dentro da empresa já conhecia muita gente como diretor de marketing da Isapa e o Francis. Então informalmente conversamos sobre atletas, pois a empresa já patrocinava alguns, mas sem alguém no comando. Daí surgiu o assunto da minha disponibilidade. Apresentei uma proposta que foi aceita e assim passei a comandar o time", explicou Edu.

Segundo ele, os atletas da equipe Oggi se viravam praticamente sozinhos nas competições antes de sua chegada. Além disso, não existia um espírito de união.

"Meu trabalho como diretor técnico foi mudar este cenário, dando uma cara pra equipe e trazendo união entre todos: aspecto importante, pois a interação entre os atletas traz motivação, apoio e naturalmente bons resultados", afirmou Edu.

"Meu relacionamento com os atletas é de total apoio das necessidades e de aconselhamento. Tento passar um pouco da experiência acumulada ao longos de todos estes anos de envolvimento em competições. Na minha época, não tive a oportunidade de ter todo esse suporte e nem por isso deixei de seguir meu caminho. Porém, as vezes vejo somente que, com todos esses recursos disponíveis nos dias de hoje, alguns se apeguem além do necessário em equipamentos top e esquecem do primordial, que é o foco na preparação", disse o experiente atleta e treinador.

Buscando novos talentos
Segundo Edu, além do trabalho de acompanhamento, existe um trabalho super importante de encontrar novos talentos.

"Na posição em que me encontro como diretor técnico, tenho uma responsabilidade muito grande na busca por um talento. É super interessante quando você está acompanhando uma competição e observa os diversos aspectos de um atleta para fazer uma escolha coerente. Este processo sempre será uma incógnita, por mais que a escolha pareça a correta. Tratam-se de seres humanos e isso sempre será uma aposta e nunca uma certeza. Em meio a tudo isso, existe os interesses do patrocinador, que as vezes não está totalmente relacionado a resultados expressivos", explicou Edu.

"Nosso MTB atingiu um patamar muito bom no que diz respeito ao nível dos atletas e na qualidade dos eventos. Mas, de qualquer maneira, qualquer atleta que almeje chegar onde nosso Henrique Avancini chegou, é preciso que realize estágios Internacionais. A diferença é a quantidade de atletas de alto nível que você vai encontrar lá fora, puxando cada vez mais seu nível. É preciso dedicação e paciência, esse processo é construído ao longo dos anos", explicou Edu.

Tempos de pandemia

Como não poderia deixar de ser, nosso papo com Edu passou por este momento atual que estamos vivendo, com o mundo todo sendo afetado de diversas formas pela pandemia da Covid-19, doença causada pelo Novo Coronavírus. Nesses tempos de incertezas, manter a motivação para treinar é fundamental. Para isso, ele (e Darwin) concordam: o segredo da sobrevivência é a capacidade de adaptação.

"Realmente estamos presenciando uma situação inusitada com essa Pandemia quebrando a rotina de todos. De imediato ficamos meio desorientados, mas tudo pode ser adaptado. Hoje, graças a Deus existem diversos recursos para suprir nossas necessidades na questão condicionamento físico em ambiente indoor, já que não temos ideia de quando isso vai acabar.

O ideal é traçar um plano bem variado nas atividades indoor possíveis de serem realizadas como Musculação, Pilates ou Funcional, Ioga e alongamento, e lógico as series com a bike no rolo, que podem ser bem variadas, ainda mais com esses novos recursos de simuladores de competições. O ideal é dividir o dia em dois períodos, alternando essas atividades. Não podemos também ficar bitolados sem esquecer de buscar alguma distração para a mente para aliviar esses momentos de confinamento. Ai vai da imaginação e criatividade de cada um", finalizou Edu.


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