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Entrevista - Abraão Azevedo fala sobre sua carreira e do cancelamento do Cape Epic 2020

Uma das maiores lendas do MTB nacional dá mais detalhes de sua carreira e de qual foi sua reação ao cancelamento do Cape Epic, com ele na África

Do alto de seus 50 anos, Abraão Azevedo é um desses atletas cuja carreira longa e repleta de vitórias desperta respeito por quem segue o esporte há mais tempo. Há algumas semanas, Abraão estava presente na África do Sul, nos preparatórios para o Cape Epic 2020, prova que foi cancelada na última hora por conta da pandemia da Covid-19. Para falar sobre este e outros assuntos, batemos um papo com esta verdadeira lenda do MTB nacional.

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O começo na bike e a paixão como profissão

Assim como muitos outros, o primeiro contato de Abraão com a bike aconteceu na infância. De cara, o que despertou o interesse dele pela bicicleta foi o desafio. "Como toda criança, nós vemos as pessoas mais velhas andando, e tem aquele desafio do equilíbrio que fascina bastante", disse.

"Também usei a bike como meio de transporte quando era criança. Ia para a escola pedalando. Depois, nos finais de semana, ia fazer pique-nique e acampar com a bicicleta. As vezes tinha um desafio mais longo, então foi mais ou menos por ai", complementou.

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A paixão que começou na infância amadureceu e acabou se transformando em uma longa carreira no ciclismo, algo que, ainda mais aqui no Brasil, merece muito respeito.

Falando especificamente de resultados, venci todas as principais provas de XCO e XCM do Brasil, inclusive o campeonato brasileiro, além de ser campeão pan-americano pela elite, no México em, 1998



"Acho que mais do que meus resultados, meu maior mérito é sobreviver há muito tempo da modalidade do mountain biking, em um país que tem pouca cultura de bicicleta. Fico muito feliz em viver há 30 anos de bicicleta. Hoje em dia, além de competir, ainda trabalho com treinamento de atletas, então minha maior conquista é viver de algo que eu gosto há tanto tempo", afirmou Abraão.

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"Falando especificamente de resultados, venci todas as principais provas de XCO e XCM do Brasil, inclusive o campeonato brasileiro, além de ser campeão pan-americano pela elite, no México em, 1998. São vários resultados, mas o principal é fazer algo que eu gosto e sinto prazer como profissão", afirmou o experiente atleta, que de quebra ainda tem uma incrível história de vitórias no Cape Epic.

Vitórias no Cape Epic

O Cape Epic é, de fato, uma das provas mais importantes do calendário mundial do MTB. Com seu percurso duro e formato de stage race, a competição realizada na África do Sul tem a fama de ser uma das ultra maratonas mais difíceis e cansativas do planeta. Nela Abraão já saiu vitorioso 5 vezes na categoria Master, ao lado de outra lenda do esporte, o holandês Bart Brentjens.

Mais uma vez, a força motivadora por trás desta história de vitórias foi o desafio.

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"Corri todas as edições desde 2013, menos em 2020 quando a prova foi cancelada. Esse desejo começou em 2010, quando eu corri o Brasil Ride. Não tinha muita noção de como eram essas provas, ficar acampado e correr. Então foi um desafio bem maior para mim. Antes, eu nem sabia da existência do Cape, que é a principal prova do mundo. Então isso me fascinou e meu deu um grande desejo de participar", comentou.

Segundo ele, um dos maiores destaques do Cape é a presença e a proximidade com atletas internacionais. "Durante 4 anos, quem estava na liderança largava junto com os principais líderes. Fiquei lado a lado com Kulhavy, Sauser e Schurter. Estar ao lado dos principais atletas do mundo, ver como eles se alimentam e qual é a rotina deles é fascinante. É um aprendizado muito grande, já que é um período relativamente longo de 8 dias, que temos condições de assimilar muitas coisas sobre atualidades do esporte e como a modalidade está evoluindo. É um bom termômetro para entender o que está acontecendo no mundo do MTB atualmente", afirmou Abraão.

Segundo ele, foram duas edições marcadas pela dificuldade. A primeira, em que ele não sabia nada sobre a prova e nem como o corpo reagiria aos pedais em alta intensidade, por vários dias seguidos, e a de 2017, em que ele e sua dupla bateram guidão contra ninguém menos do que Cadel Evans e George Hincapie, dois atletas com uma bagagem impressionante de competições, com algumas passagens - e vitórias - em competições do pelotão ProTour como o Tour de France.

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"Na edição de 2017 eu já estava com 48 e correndo contra atletas mais jovens, de cerca de 40 anos anos. Estavam lá o Cadel Evans e o Hincapie, então a prova foi muito desgastante. Acabamos ficando em segundo, mas bem perto dos primeiros e alternando posições o tempo todo. Ganhamos o prologo por 1 segundo, no dia seguinte sofremos dois pneus furados e perdemos a camisa. No final eu tomei um isotônico estragado e acabei passando mal", relembrou o atleta.

"Até o último dia ainda não estava certo quem seria campeão, mas aí o Cadel Evans e o Hincapie abriram dois minutos e pouco, e acabaram vencendo. Foi uma prova que ficou na memória para sempre, já que ela foi bem disputada e fizemos o nosso melhor até o último dia. Por isso, vencendo ou não, ficamos com a sensação de dever cumprido", afirmou.

Coronavírus e o cancelamento do Cape 2020

O ano de 2020 começou com uma sombra pairando sobre o mundo. Depois de um surto que começou na China no final do ano passado, o Novo Coronavírus foi se espalhando, forçando o cancelamento de praticamente todas as competições de bicicleta ao redor do mundo. Marcado para começar no dia 15 de março, o Cape também acabou sendo cancelado, porém apenas no dia 13 do mesmo mês. Na ocasião, Abraão já estava na África do Sul, com tudo pronto para a largada.

"Me preparei bem para o Cape como das outras vezes. Este ano ainda corri o Tankwa Trek, em fevereiro, visando o Cape Epic, e fiz um bom resultado. Sai de lá muito confiante. Cheguei no Brasil e segui treinando e estava muito bem preparado. Tenho certeza que iríamos dar trabalho para as outras duplas que estavam brigando pelo primeiro lugar, mas infelizmente não foi isso que aconteceu", explicou Abraão.

"A viagem já teve uma sensação muito diferente. O aeroporto de São Paulo já estava muito vazio e caminhei praticamente sozinho para a ala dos embarques internacionais, isso foi uma semana antes da prova. Chegando lá, fiquei na casa de dois amigos do Bart e consegui treinar normalmente. Curiosamente, dois dias antes da prova, e com vários eventos sendo cancelados, o Bart me perguntou se eu achava que nós deveríamos correr a prova.

Respondi que, como já estávamos lá, nós deveríamos correr. Pouco depois a prova foi cancelada, praticamente 30 horas antes da largada. Estávamos com tudo organizado, com as compras feitas e até já tínhamos pegado o motor home que usamos", lamentou Abraão.

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"No momento fiquei meio chateado não com o cancelamento, mas acho que eles poderiam ter cancelado antes. Hoje, olhando para trás, vejo que a decisão foi acertada. Terminar a prova super cansado e voltar para casa com aeroporto e tudo mais, envolve um risco maior de alguém ser contaminado com o Coronavírus e ter um problema mais sério. Além disso, disseminar a doença no mundo. Foi uma notícia triste, mas totalmente aceitável", afirmou Abraão.

Segundo ele, o passar do tempo serviu para consolidar ainda mais sua opinião, principalmente porque a prova gera um desgaste muito grande no corpo, colocando os atletas em uma condição de alto risco.

"É um evento que gera um desgaste fora do comum no corpo, então foi uma decisão acertada", afirmou.

Perspectivas daqui para frente

Abraão afirma que os treinamentos continuam acontecendo, com foco para o Brasil Ride, que deve acontecer em Outubro de 2020, e também para o Campeonato Brasileiro de XCO. Porém, segundo ele, aconteceu uma adaptação para reduzir a intensidade dos treinos.

"Estou buscando um maior equilíbrio do corpo, de maneira a buscar mais saúde do que desempenho neste momento. Ai, quando o calendário voltar e os eventos estiverem definidos, estarei motivado e saudável para aumentar novamente a intensidade", afirmou o atleta.

"Para 2020, ainda tinha o plano de correr o mundial master que seria em Agosto, mas estou preferindo ficar mais aqui no Brasil. Para 2021, pretendo correr o Cape Epic e já falei com o Bart para tentar organizar. Essa ficou engasgada, já que nos preparamos bem e a prova não aconteceu.

Lições para o futuro

"Acho que essa experiencia mudou nossa forma de pensar. Reconsideramos nossos valores, e acho que não vamos voltar a ser o que éramos antes. Acredito que as pessoas vão ter uma mudança de conceito, valorizar mais o tempo e o convívio com as pessoas. Percebemos que não adianta correr muito, já que vamos chegar no mesmo lugar. Como dizem, ficamos correndo atrás do rabo sem chegar em lugar nenhum. Então temos que estar mais focados no que realmente importa", afirmou o experiente atleta.

"Quem gosta do MTB e do ciclismo em geral, tem que ter consciência que isso é uma questão passageira, e acho que o esporte é algo que nos mantém conectado com a realidade, nos trás prazer, qualidade de vida e saúde. Por isso, temos que manter a esperança de que dias melhores virão, e que então poderemos praticar o MTB que a gente tanto gosta, sentindo a sensação de liberdade que a bike proporciona, cada um dentro de sua preferencia", finalizou Abraão.

As bikes do Abraão

Patrocinado pela Scott Bikes Brasil há quase uma década, Abraão sempre aposta há alguns anos nas bikes full suspension da marca para encarar provas duras e com muitas horas de pedalada como o Cape Epic. No arsenal do atleta, uma das favoritas é a Spark, bike cuja história você conheceu neste artigo do Pedal.

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"Tenho uma Spark RC COMP para treino e uso uma Spark RC WORLD CUP AXS para competição", afirmou. Aparentemente, as bikes utilizadas pelo atleta são bastante adequadas para suas funções, já que ambas estão praticamente originais, com poquissimas alterações na configuração de fábrica.

"A bike de treinar está com a configuração original, e a de competição coloquei SRM no pedivela para medir a potência e diminui 2cm no guidom", finalizou.

Ao longo dos anos, testando as bikes da Scott, temos que concordar com o atleta. Afinal, seja a Spark 920 que testamos em 2018, na Spark RC 900 SL AXS recentemente pedalada por nós ou mesmo na viagem para a Suíça que aconteceu no lançamento da nova Spark, as bikes da marca sempre se mostraram rápidas e bem acertadas.

Scott Spark RC 900 World Cup AXS - Ficha técnica resumida

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Quadro: Spark RC em carbono HMX
Suspensão dianteira: RockShox SID Ult. Suspensão RLC3 100mm
Shock: RS Nude RLC3, 100mm TwinLoc
Transmissão: SRAM XX1 AXS Eagle de 12 velocidades
Freios: Disco SRAM Level TLM Disc Brakes
Rodas: Syncros Silverton 1.0 em carbono
Pneus: Maxxis Rekon Race Kevlar
Componentes: Syncros em Carbono
Peso divulgado: 10.3Kg

Scott Spark RC 900 Comp - Ficha técnica resumida

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Quadro: Spark RC em Alumínio SL
Suspensão dianteira: FOX 32 Float Rhythm 110mm
Shock: FOX Float, 100mm, TwinLoc
Transmissão: SRAM GX-NX Eagle de 12 velocidades
Freios: Disco Shimano SLX Disc
Rodas: Syncros Silverton 2.5 TR
Pneus: Maxxis Rekon Race Kevlar
Componentes: Syncros
Peso divulgado: 13.1Kg

Mais informações no site da Scott.


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Comentários

Tive uma impressão de reportagem direcionada, outrossim vejo atletas modestos como Cláudio Roberto (Cavera) de Magé/RJ que aparece em 2º lugar na terceira foto, que também coleciona vários títulos e representa muito bem o Brasil no Mountainbike, sem divulgação. É, divulgação (')!.

Ótima entrevista meus líderes ??????????