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Opinião - Criticar o jogador Fred por pedalar em bike elétrica é ignorância

Entenda como funciona uma bike assistida e porque não é nem um pouco fácil ir de BH ao Rio

Na última semana, o jogador Fred Guedes, teve a iniciativa de fazer uma ação social para arrecadar cestas básicas para vítimas do coronavírus coincidindo com sua chegada no seu novo time de futebol, o Fluminense, do Rio de Janeiro.

A ação, batizada de Tour do Fred, consistiu em um desafio de ir de bicicleta de Belo Horizonte até o Rio de Janeiro, passando em parte pela rodovia BR-040 e por caminhos alternativos com estradas de terra, que fazem parte da Estrada Real. A quilometragem total é prevista para aproximadamente 600km.

O atleta e patrocinadores, prometem doar cestas básicas por cada quilômetro percorrido, só no primeiro dia, o desafio bateu a meta de quatro mil cestas básicas em donativos, que podem beneficiar até 3 mil famílias.

Uso de bike elétrica gera críticas em redes sociais

Críticas em redes sociais não são nenhuma novidade. Mas, o que chamou minha atenção, foi o total desconhecimento, ou melhor chamando, ignorância sobre o assunto bicicleta.

Tour do Fred recebe críticas em redes sociais
Tour do Fred recebe críticas em redes sociais


Entendendo as diferentes bicicletas

Primeiro de tudo, o leigo precisa entender o que é um bicicleta moderna. Existem diversas modalidades e tipos de uso. No caso do Fred, ele usou uma mountain bike, que é um tipo de bicicleta para andar em trilhas e estradas de terra, já que o percurso passou pela Estrada Real.

A grande maioria das pessoas já pedalou uma bicicleta no plano, por alguns quilômetros, mas nunca teve que encarar uma subida complicada, num terreno esburacado, enlameado, escorregadio ou macio, onde além da bicicleta render menos, ainda gera uma fadiga enorme.

Bicicletas Elétricas - Diversos modelos e usos

Ao falar em bicicleta elétrica, muita gente tem a imagem daquelas antigas "mobiletes", onde você sentava num banco confortável e apenas torcia o acelerador.

Porém, no mundo das bikes elétricas, o modelo mais comum é a bicicleta de pedalada assistida, onde não há acelerador! Sim, existe um motor, porém ele não faz o trabalho sozinho! Se você não pedalar, a bicicleta não sai do lugar. Ele apenas facilita sua pedalada.

No caso do Tour de Fred, ainda entramos numa variação: a bicicleta usada em alguns trechos foi uma Mountain Bike elétrica!

Mountain Bikes Elétricas

Pegue a bicicleta urbana de pedalada assistida e a transforme para andar em estradas de terra e trilhas de todos os níveis. Essa é uma mountain bike elétrica! A tecnologia só ganhou maturidade há alguns anos, quando os primeiros modelos com características realmente interessantes chegaram no mercado.

Sense Impulse e-Trail, a polêmia bike elétrica
Sense Impulse e-Trail, a polêmia bike elétrica

Essas novas bikes trazem uma revolução para o esporte, já que agora é possível uma experiência muito próxima a de uma mountain bike normal. A bike usada pelo Fred já é um modelo 2020 da Sense. Ainda em 2018, pedalei por 10 dias o protótipo da primeira versão, e você pode ver o teste completo da bike Sense Impulse e-Trail aqui.

Faz força sim!
Porém, em termos de esforço, ela não vai salvar a sua vida! Para começar, essas bikes pesam muito mais. Uma e-MTB, como são também chamadas, pesam mais de 20 kg atualmente, enquanto uma mountain biking de ponta, fica abaixo dos 10 kg.

Além disso, sendo uma mountain bike, ela não é tão fácil de pedalar como no asfalto, já que ela tem pneus mais grossos, que trazem maior arrasto e peso, além de duas suspensões que acabam roubando um pouco de energia também.

Para deixar ainda mais difícil, vale lembrar que a bateria dessas bikes não duram o dia inteiro. A duração está totalmente ligada a eficiência que você é capaz de pedalar e o quanto de ajuda que você configura do motor.

Isso mesmo, é possível regular a força do motor e, como uma mountain bike tradicional, existem diversas marchas (no caso da Sense, 12). Se você usar a força máxima do motor, não fizer uso correto das marchas e não fizer muita força, a bateria acaba em poucas horas! Você pode entender melhor sobre como funciona uma bicicleta elétrica aqui.

Pra que serve então uma mountain bike elétrica, já que tem que fazer força ?
Como disse antes, essas bikes trouxeram uma revolução para o esporte. Ao invés de pensar que a pessoa que usa é preguiçosa, que tal pensar que a pessoa pode ir mais longe ou chegar mais rápido ?

No meu caso, morando na zona sul do Rio, a bike elétrica me permite ir fazer trilhas na Floresta da Tijuca, saindo de casa pedalando e gastando a metade do tempo. Ou seja, em um dia com menos tempo disponível ainda posso ir em um lugar longe.

Um dos experimentos que fiz questão de fazer foi colocar um amigo meu sem muito preparo físico, em uma bike elétrica, para pedalar comigo em uma bike tradicional. Conseguimos pedalar por mais de 3 horas, acumulando mais de mil metros. Pra quem mora no Rio, isso foi o equivalente a subir o Cristo por Laranjeiras, continuar pelas paineiras, descer o Alto da Boa Vista, dar uma volta na Floresta da Tijuca e voltar pela Vista Chinesa.

Algum dos experimentos que fiz com mountain bikes elétricas podem ser vistos aqui.

E se o Fred não usasse uma bike elétrica ?

Apenas para esclarecer, a bike elétrica não foi utilizada todos os dias. Mas também foi usada uma bike de enduro, que não tem motor. Também já testamos a Sense Exalt, igualmente quando era protótipo.

Sense Exalt, a bike de Enduro
Sense Exalt, a bike de Enduro

A questão é simples. Se o jogador não usasse a bike elétrica, o percurso levaria mais tempo ou traria uma maior fadiga. Simples assim. A pergunta é: que diferença faz ? A ação não é uma competição e nem uma quebra de recorde!

Imagine a situação... você faz uma volta por toda a América do Sul, cruza países, leva dias, faz todo um planejamento, curte a experiência. Quando você volta da viagem, alguém te fala: "Ahhh, mas seu carro tem esse motor ? Assim até eu!". Difícil imaginar né... afinal, você não foi competir o Paris-Dakar!

Sendo uma ação social, não tem nem o que comentar! Existem muito argumentos ainda para apoiar a ação, que estão sendo discutidas exaustivamente nas redes sociais. Mas acho interessante tentar dar uma luz na, incompreendida, bicicleta elétrica.

Fico muito feliz que um jogador de futebol de elite tenha conseguido experimentar o mundo das bikes e trazer uma maior compreensão pra um esporte no Brasil ainda pouco valorizado, mesmo tendo um campeão mundial como o Henrique Avancini.

No final de tudo, o que tenho certeza é: quem experimenta a bike, elétrica ou convencional, não volta atrás, Obrigado Fred !




Post Author

Pedro Cury

Editor no Pedal.com.br e Atleta Amador


Envolvido com bikes há mais de 20 anos, Pedro Cury já experimentou quase todas as modalidades de ciclismo. Colabora com matérias e testes de bikes para veículos nacionais e internacionais.



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