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A confusão na Cidade Universitária da USP

Dia 25 de Abril de 2005 terminou uma era do ciclismo paulistano: a dos pelotões da Cidade Universitária da USP. Depois de anos de os mais diversos atritos com os que treinam lá, o Conselho do Campus da Capital decidiu dar um basta e proibir o ciclismo na área. Não sei ao certo se será uma proibição para todo e qualquer ciclista ou somente para aqueles que se vestem como ciclistas, possibilidade aventada por um meio de comunicação. Nem por quanto tempo durará. Muita água ainda vai rolar.

Independente das incertezas atuais é absolutamente crucial entender o que aconteceu lá. Vamos lá então.

Uma das únicas áreas de treino disponíveis em São Paulo, a USP sempre foi a preferida dos ciclistas por estar dentro da cidade, numa área praticamente central, ter avenidas largas, asfalto bom, poucos cruzamentos e ser relativamente segura. Não conheço outro local igual aqui que não seja estradas, a maioria de difícil acesso. O obstáculo mais complicado para chegar na USP é cruzar uma das 4 pontes sobre o rio Pinheiros, todas de trânsito pesado. Já para chegar em qualquer estrada é necessário enfrentar o feroz e perigoso trânsito das Marginais. Há a opção da via Anhanguera, mas esta também está longe do perfil ideal para um bom treino.

A gritaria por parte dos ciclistas está sendo grande. Bem entendido - dos ciclistas que pedalavam ali. O resto dos ciclistas da cidade está falando ou reclamando por puro efeito manada, sem saber bem o que acontece. A verdade é que o pessoal do pelotão da USP está fazendo um belo trabalho vendendo a idéia que a direção da USP é troglodita, autoritária, ditatorial e outros sinônimos mais que estão aparecendo na internet e nas conversas.

Ciclistas urbanos, mountain bikers, BMXs e afins sempre trataram de guardar cordialidade entre si, num certo senso de irmandade. Cordialidade estendida também aos domingueiros da vida. É óbvio que há os imbecis, mas são bem poucos. Já ciclistas de estrada e triatletas sempre foram vistos com certa reserva pelas outras comunidades do ciclismo paulistano. São normalmente grupos fechados, não muito dados a responder "bons dias". Geralmente mostram desconforto em ser acompanhados por ciclista que não esteja vestido a caráter ou esteja pedalando uma bicicleta inapropriada (para os padrões deles).

Talvez a razão para este distanciamento seja que pouco compartilham os mesmos espaços urbanos que o "resto" dos ciclistas - nós todos, os pobres mortais. Bicicleta de estrada tem necessidade de locais especiais. Seus ciclistas pedalam isolados, o que em nada justifica o ar de superioridade que, não raro, demonstram.

Depois de muita confusão a USP foi fechada para eles, ou para todos nós, não sei bem ainda. Por que? Porque o saco da direção da USP não agüentava mais pelotões enlouquecidos dando sprints a mais de 50 km/h no meio do trânsito, situação que lembra tanto o desagradabilíssimo fenômeno paulistano dos motoboys. Porque já se quebrou mais espelhos retrovisores aos chutes de sapatilhas do que o aceitável. Ou talvez porque seja minimamente de bom senso respeitar o "guardinha" responsável pela área, quando este vem dar bronca por que "ali não é lugar de mijar" (ao lado da reitoria). Ou então porque não faça parte dos costumes civilizados esbofetear mulheres motoristas desajeitadas ao volante. Ou espancar quem está correndo a pé porque este estava na contra-mão. Talvez a direção da USP tenha ficado cansada de receber o número de reclamações que vinha recebendo semanalmente, muitas das quais pesadas, todas relativas sempre ao mesmo pessoal.

Segundo dizem são entre 500 e 600 ciclistas. É óbvio que a imensa maioria deve ter normalmente um comportamento civilizado. O problema vem sempre de uma minoria. Mas esta minoria não foi refreada pelos próprios companheiros civilizados de treinamento. Nunca se ouviu uma história sequer sobre alguém que tenha sido renegado pelo próprio grupo por comportamento inapropriado. Nunca! Que pena. Mas, como afirmam, a direção da USP é que é imbecil! Os motoristas é que são perigosos! Todos são culpados! Nós somos anjinhos, coitadinhos.

No Parlamento da Bicicleta houve quem exigisse que a USP tomasse atitudes para melhorar a situação, fornecendo sinalização, educação para motoristas, e ainda troca do asfalto ruim. Quem não lê jornal não sabe que não há dinheiro sequer para melhorias na educação dos estudantes, que é única finalidade da existência da USP. Mas isto parece não interessar. O negócio é não perder a área de treinamento.

A sugestão que faço é que então este pessoal do pelotão da USP se responsabilize pelas melhorias necessárias para dar um nível de segurança mínimo para todos, ciclistas, pedestres e motoristas. Custaria, só a parte de sinalização e educação, uns R$ 500 mil, mais ou menos. Não tenho o preço de asfalto, mas vai outro tanto. Provavelmente não é tão caro assim para eles, afinal quanto custa o personal, mais academia, mais a manutenção da bicicleta, mais...

Convenhamos, uns R$ 500 mil rateados entre estes mais de 500 ciclistas de estrada e triathletas é nada em troca do luxo do uso de área tão nobre. O que seria duro mesmo é tentar controlar os selvagens. Aí é que eu quero ver o quão civilizado é o grupo.

Arturo Alcorta


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