Teresão, uma senhora, uma ciclista

Vai aqui minha homenagem às mulheres no geral. Um dia conto historinhas de cada uma das de minha vida: minha querida mãe, amigas, namoradas, mulheres, todas elas que sempre deram uma força a mim, e portanto a esta minha paixão chamada bicicleta. Haja paciência.

A bem da verdade o que me trouxe a estas memórias foi uma conversa sobre a Cláudia Carcerone, com quem infelizmente estive só umas poucas vezes, mas com quem sempre tive diálogo agradável. Claudia já não deve ser mais uma menina e continua ai, sempre na ponta. Infelizmente perdi contato com ela e com outras amigas e vencedoras que conheci através do mountain bike: Nana, Ana Cecília, Ieda... Com Renata Falzoni sempre estou.

Mas é através de uma figura pouco conhecida e muito especial que fica uma homenagem a elas: Teresa D’Aprile, a Teresão.

Teresão hoje está nos seus 56 anos e acaba de subir pedalando a Serra Dona Francisca, em Santa Catarina. Para entender do que se trata, é uma estrada asfaltada com desnível aproximado de 600m percorridos em 11 km, sendo que aproximadamente 530m em 8 km. Uma brutalidade até para os marmanjos mais preparados. E olha que estava deprimida porque uns dias antes não havia conseguido fechar a subida do Pico do Jaraguá, a montanha mais alta próxima a São Paulo, parando quando faltava 800 metros. Ponho minha mão no fogo que os meninos mataram ela antes para não passar vergonha (e vou apanhar deles por falar isto). Por que há alguns anos ela subiu todo Pico e ainda teve o prazer de ouvir de uns guris parados no acostamento para descansar: “O meu, vamos lá, que a vovó está nos passando”. Ela chegou antes deles e a “vovó” ficou barato.

Teresão recebeu este apelido exatamente por sua força. Histórias como esta ela tem aos montes. Num passeio de mountain bike do Paulinho do Sampa Bikers, em Itapecerica da Serra, há uns 10 anos, dos 200 que pedalavam somente 20 completaram uma parede, 19 homens e uma mulher: Teresão. Em outro momento, talvez a melhor de todas as histórias, passaram por ela cinco adolescentes, todos nos seus 16 anos e insinuaram que “velha estava pedalando...”. Uns 5 km depois o último sucumbiu ao sprint mortal da “velha” e ficou para trás com cara de moral destroçada. Para terminar: foi a única mulher com mais de 50 anos a participar de uma 9 de Julho, pedalando uma mountain bike com pneus slick. Fez duas das 4 voltas, mas terminou na frente de muita menina. O diretor da prova sequer citou o fato, notável, por razões pessoais. Deprimente. Mas ela estava lá.

A Bicycling deste mês vem com artigo de fundo sobre ‘Sexo’ e ciclismo que vale a pena ser lido. Ciclismo sempre foi mais ligado a homens, mas mulher tem um lugar muito especial na vida das duas rodas. A importância de todas elas em nossas vidas não pode nunca ser esquecida. Do que parece nada, mas é nossa saborosa comida pronta no prato e roupa lavada; à paciência infinita no tratar o que resta do ciclista acidentado. Da que nos faz massagem; a que nos enche a paciência com preocupações bobas (e que são efetivamente sensatas). Mulheres. Indispensáveis.

A Bicycling deixa claro que elas podem pedalar até melhor que homens. Vale a pena construí-las como ciclistas. Presenteá-las com bicicleta correta, ter paciência no refinamento da técnica, entender seus medos e diferenças. Vocês não imaginam a satisfação que dá vê-las chegarem lá. E todas que foram tratadas com respeito e carinho chegaram. A recompensa é imediata - e melhor ainda um pouco depois.

Cuidem bem delas. Merecem mais do que podemos retribuir.
Obrigado dona Lollia (minha mãe). Obrigado a todas.

(foto: Teresa quase no final da Serra Dona Francisca)

Autor: Artur Alcorta

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Postado por: Pedro Cury em 20/01/2005


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