O Cape Epic deste ano contou com vários brasileiros, entre diversas duplas, os mineiros Rogério Chaves e Bruno Moterani. Os amigos partiram do Brasil para o primeiro e grande desafio como amantes do mountain bike.
Rogério é o membro "Goi", do fórum Pedal.com.br. Ele e Ricardo fizeram um relato de todos os dias da competição: melhores e piores momentos.
Confiram o relato da dupla:
:: Primeiro dia
"Nesse dia a apreensão era maior do que tudo. Tomamos um banho de água fria, quando vimos que teríamos que largar na última colocação, dentre 600 duplas. Fizemos muita força. O Bruno teve cãimbras em todos os músculos da perna, do Km 60 até a chegada com 117 Km.
Mesmo com as cãimbras, tivemos um dia muito bom e quase ficamos entre os 100 primeiros na geral (102).
:: Segundo dia
Esse dia foi muito bom. Andamos bem demais durante praticamente os 90Km, no finalzinho, tínhamos que rodar uns 5Km em um areial e isso fez com que cansássemos muito. Acabamos perdendo umas 7 ou 8 posições com a linha de chegada no campo de visão, mas como o que conta é o tempo geral, a perda não foi tão grande assim.
:: Terceiro dia
Esse foi o dia que mais andamos. Um bom dia de desempenho para o Bruno, que como era a "parte fraca" do time, melhorou demais para a dupla. Chegamos a puxar um grande pelotão por mais de 20km, com força para quebrá-lo no final e ganhar em um sprint. O Rogério começou a sentir o joelho nesse dia, Bruno começou a ficar muito machucado pelas assaduras por causa do atrito com o banco.
:: Quarto dia
Mais um dia em que andamos bem e conseguimos escalar algumas posições. O Rogério conseguiu fazer uma bandagem no joelho e parou de sentir as dores. A partir desse dia, o Bruno ia todos os dias no hospital de manhã, para fazer curativos proventivos para as assaduras, mas a situação começou a ficar caótica. 
:: Quinto dia
Esse era o dia do Contra Relógio e foi muito bom dar uma quebrada de ritmo, acordando um pouco mais tarde. O Bruno estava sentido dores terríveis nas partes de baixo em decorrência das assaduras. Um monte de feridas abriram, por causa do atrito e teve que fazer o CR praticamente em pé. Nosso tempo foi razoável e ainda subimos mais algumas posições.
:: Sexto dia
Esse dia é um dia que queremos esquecer da nossa vida. A prova começou com um deslocamento de 7Km e logo depois uma subida curta e uma descida de 1Km pra chegar em uma represa. Nessa descida, o cara que estava na frente do Rogério caiu e ele, andando bem perto não conseguiu parar e capotou, indo de cara no chão. O Bruno estava umas três pessoas para trás e "assistiu de camarote". Parou a bike e quando chegou perto, o Rogério estava por baixo da bicicleta desmaiado. Ele tirou a bicicleta e voltou correndo morro acima, para chamar o paramédico (que estava perto). Foi gritando para todos pararem, para que não piorasse o acidente. O médico chegou lá em aproximadamente 3 minutos.
"Nessa hora, meu psicológico foi paro buraco, completamente" disse o Bruno. Daí o Rogério montou na bicicleta, depois de uns 15 minutos e demos continuidade à corrida. "Minhas pernas pararam de funcionar. Eu simplesmente não conseguia fazer mais força. O susto que eu passei começou a bater e eu comecei até a chorar em cima da bike. Cheguei no primeiro ponto de água querendo abandonar a prova e ir para casa. Era só nisso que eu pensava. Nessa hora o Rogério me deu um puxão de orelha e continuamos". Dali para frente o Bruno conseguiu colocar a cabeça em ordem e seguir, mas o Rogério estava com muita dor e fomos razoavelmente devagar nesse dia.
Perdemos muitas posições, mas só de ter chegado, nesse dia, já foi uma conquista. 
:: Sétimo dia
Esse foi o dia mais difícil do Cape Epic. Eram 90 Km com 2200m de ascensão. Descobrimos que isso se resume em subidas que não acabam mais. Detalhe: Todas as subidas, além de duras, eram de terreno solto, com muita pedra. O Bruno, pela primeira vez na prova, sente o cansaço e resolvi gastar tudo o que tinha. A largada foi debaixo de uma garoa leve e fazia muito frio. Enfrentamos chuva por grande parte do dia.
A Lei de Murphy atuou pesado nesse dia e em todas as subidas havia muito vento contra. Vento que quase derrubava da bicicleta. Nesse dia já havíamos caído para a quinta posição entre os brazucas, com a sexta extremamente ameaçada. Quando iniciamos o "Mountain Pass" do dia, sabíamos que sentiríamos o frio no topo da montanha e não deu outra. Mesmo assim, conseguimos fazer uma ótima corrida, chegando em terceiro entre os brazucas. Destaque para os longuíssimos singletracks dentro de floresta no estilo dos DVDs gringos. Fantástico!
Chegamos muito cansados e o Bruno havia gasto todas as fichas que tinha nesse dia.
:: Oitavo dia
Último dia. Não podiamos acreditar "apenas" 65Km, mas com muito desnível - 1800m - e mais um "Mountain Pass". "Minhas pernas simplesmente não funcionavam mais e resolvi encarar como passeio. Fiz o que podia de força" disse o Bruno. Nesse dia tivemos o pior desempenho da prova, ficando em 139 geral, no dia.
A sensação de cruzar a linha de chegada é algo que não tenho como descrever. É libertador. Saber que no dia seguinte não ter que levantar 5hs da manhã, não ter que passar frio, sofrer por horas e horas. É muito bom. Mas ao mesmo tempo vem a tristeza de saber que toda aquela epopéia já havia acabado. Se não fosse o acidente, certamente teríamos uma performance bem melhor, mas temos muito que agradecer que o acidente não passou de 8 pontos na boca e uma dor de cabeça (que durou mais de uma semana).
No final finalizamos a prova em 94º geral e 76º na categoria, num total de 600 duplas. Nada mal inclusive em decorrência do problema que tive que nos fez perder muito tempo. E realmente foi muito difícil completar a prova com os pontos na boca e uma grande dor de cabeça. Mas fui com esse objetivo e tinha de cumprí-lo... e conseguimos!
A única certeza que fica é que estarei lá em 2011."
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